Política

Acabou o governo Bolsonaro da propaganda; começa um governo como Bolsonaro é

leandro@vortex.media

Acabou nesta sexta-feira (24/04) o governo Jair Bolsonaro como foi vendido aos eleitores em 2018, com viés liberal na economia e combate à corrupção. Começa agora o governo Bolsonaro mais à semelhança do que o presidente quer que seja.  

Por que isso importa?

A demissão de Sérgio Moro e o enfraquecimento de Paulo Guedes mudam completamente o governo Bolsonaro e o deixam mais radical, com a cara do presidente.

Com a saída do ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o enfraquecimento cada vez maior do ministro da Economia, Paulo Guedes, restam na gestão Bolsonaro os ministros militares e os alinhados ao escritor e astrólogo Olavo de Carvalho. Em maior ou menor grau, é uma equipe sem vida própria, que só existe devido ao presidente.

  • O principal recado é que Bolsonaro não tolera pessoas independentes, que não compartilham seu radicalismo: quer um governo de ministros obedientes, sem espaço para dissensos. É o que se deve esperar a partir de agora.
  • Sem Moro e com Guedes enfraquecido, Bolsonaro arrisca perder parte de um público mais amplo e caminha para afunilar em seu eleitorado mais fiel, formado por parte dos conservadores, parte dos evangélicos e radicais que pedem intervenção militar, cloroquina e acreditam que o coronavírus causa apenas gripe. Em resumo, pode ser a volta de Bolsonaro a seu nicho inicial, aquele que sempre cultivou quando deputado.
  • Moro sempre foi mais popular do que Bolsonaro. Sua demissão pode afastar os fãs da Lava Jato e adeptos do combate à corrupção, que não necessariamente votaram em Bolsonaro.
  • Bolsonaro perde também o discurso do combate à corrupção. Será difícil para o presidente tentar carregar esta bandeira depois de ficar claro que ele quer intervir na Polícia Federal para evitar que seus filhos sejam investigados.
  • No caso de Paulo Guedes, a guinada na política econômica derruba a fantasia de que Bolsonaro era um liberal. Com Guedes sem poder, Bolsonaro corre o risco de perder o apoio de parte dos empresários e do mercado financeiro, que gostam da agenda do ministro.
  • Ficam com o presidente os ministros militares e os chamados ideológicos, representados em especial por Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Weintraub (Educação). São modelos do que Bolsonaro quer: dizem barbaridades em redes sociais, causam problemas com o mundo civilizado, mas seguem diretrizes e fazem tudo para agradar o presidente.

A demissão de Moro, no entanto, dá a Bolsonaro uma vantagem: agrada ao Centrão, grupo de partidos com políticos que odeiam o ex-ministro porque sofreram com a Lava Jato. O presidente fatalmente receberá acenos de ajuda dessa turma. Coisa parecida aconteceu em 2005 com o então presidente Lula: abalroado pela descoberta do mensalão, ele recebeu oferta de ombro amigo do PMDB e aceitou. No caso de Bolsonaro, no entanto, acordo com o Centrão significa aderir à “velha política”. Vai sair caro.     

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