(Wilson Dias/Agência Brasil)
Política

PAC de Bolsonaro expõe encolhimento de Paulo Guedes na crise

leandro@vortex.media

O mais importante do anúncio do programa Pró-Brasil, o PAC do governo Bolsonaro, foi a ausência do ministro da Economia, Paulo Guedes. A existência do plano é consequência do encolhimento do ministro durante a crise e ameaça sua permanência no cargo.  

O Pró-Brasil foi anunciado na quarta-feira (22/04) pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto. Prevê investimentos de R$ 30 bilhões até 2022 em obras públicas como forma de gerar empregos e estimular a economia.  

  • O programa foi anunciado sem a presença obrigatória de Guedes ou de qualquer outro integrante de sua equipe. A situação sugere três alternativas na mesa: Guedes está fora e o governo dará uma guinada da agenda liberal para uma agenda estatista; o plano será apenas mais um evento em power point e será esquecido; Guedes engolirá o plano e ficará no governo, com menos poder.   
  • O momento no mundo inteiro é de uma ação maior do governo na economia para minimizar os efeitos da recessão causada pela pandemia do coronavírus. Esta situação, no entanto, possibilita uma virada convidativa a Bolsonaro. O presidente nunca foi um liberal; pelo contrário: sempre foi um estatista que privilegiou corporações do serviço público. Duas provas disso: a reforma da Previdência foi mais generosa para os militares e a reforma administrativa, que mexeria com os servidores públicos, foi engavetada pelo presidente.
  • A aliança de Bolsonaro com Paulo Guedes em 2018 foi de ocasião, uma forma de angariar apoio de empresários e do mercado financeiro contra o PT. Bolsonaro pode estar prestes a se libertar dessa fantasia de liberal.
  • Uma questão importante é como o setor empresarial e o mercado financeiro vão se comportar diante da mudança. Até aqui, Guedes e sua agenda eram citados como motivo da tolerância com o radicalismo do presidente. Pela tradição, no entanto, o setor empresarial liberal brasileiro tolera bastante intervenções estatais na economia.  
  • Por seus próprios erros, Guedes está em desvantagem na disputa. Assim como Bolsonaro, ele demorou muito a perceber que a pandemia devastaria seus planos para a economia. Apegado a seu programa de privatização e redução do Estado, em vez de assumir o papel de líder do país na cruzada para superar a recessão, o ministro sumiu da cena pública nas últimas semanas.
  • Uma face preocupante na questão é a alternância de influência dentro do governo. Em menos de dois meses, Braga Netto desbancou o outrora superministro Paulo Guedes, se tornou o ministro mais influente e impôs sua visão, com a anuência de Bolsonaro. Nada impede que, daqui algum tempo, um terceiro faça o mesmo com Braga Netto. Isso sugere que o governo não tem rumo definido.

O plano em si

  • Na prática, o programa Pró-Brasil não existe. Foi um anúncio com um logotipo e uma apresentação em power point, com promessas de um cronograma até 2022. Já se viu isso outras vezes em Brasília.
  • A comparação com o Plano Marshall só pode ser produto de um deslize verbal. O Marshall foi um programa pelo qual os Estados Unidos investiram bilhões de dólares na reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial. A intenção do Pró-Brasil se aproxima do New Deal, o conjunto de ações do governo americano para superar os efeitos da longa recessão causada pela Crise de 1929.
  • Ainda assim, o New Deal ou o Plano Marshall deveriam ser deixadas para descansar na paz histórica que merecem. O Pró-Brasil é uma reformatação do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, dos governos Lula e Dilma, que o governo Bolsonaro interrompeu por falta de recursos e pretendia retomar com novo nome.
  • Trata-se de uma prática recorrente no Brasil: anuncia-se investimento em obras públicas para gerar empregos. Mas as obras não são novas, estão paradas por falta de dinheiro; não há dinheiro novo garantido para os gastos; os prazos são etéreos; não é apresentada nenhuma fundamentação dos cálculos de geração de empregos. O anúncio do PAC foi a mesma coisa.  

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