(Carolina Antunes/PR)
Política

Aceno de Bolsonaro à política depende do humor das redes sociais

A aparente conversão do presidente Jair Bolsonaro à negociação política não deve ser levada em conta até que se concretize – o que vai levar ainda algum tempo. Houve outras ocasiões em que Bolsonaro conversou com partidos, falou em trabalho conjunto, para logo depois desfazer tudo.

O presidente ofereceu cargos aos partidos do Centrão na semana passada. Nesta quarta-feira, encontra dirigentes do MDB e do DEM.  

  • Bolsonaro abriu diálogo com alguns partidos porque está isolado, sem poder e se sente ameaçado por um impeachment. Sofre as consequências de sua postura negacionista diante da pandemia do coronavírus e do radicalismo que demonstrou ao apoiar atos que atacaram a democracia, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Para retomar algum prestígio e poder, sabe que precisa da política.
  • O presidente não tem uma base de apoio no Congresso. Tem apoio de parte da bancada de seu último partido, o PSL, e de parlamentares espalhados em vários partidos, especialmente os evangélicos. A construção de um partido para si e os filhos, o Aliança para o Brasil, foi interrompida pela pandemia. Bolsonaro tem de começar do zero.
  • Um passo foi dado no mês passado, quando dois dos filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, ingressaram no Republicanos, partido ligado à Igreja Universal. (O ato também mostra quanto o projeto do Aliança está na geladeira.)   
  • A maior ameaça ao movimento de Bolsonaro em direção à política é a repercussão entre seus seguidores fiéis. Bolsonaro não liga para pesquisas, imprensa ou políticos, mas é extremamente sensível às críticas de seus seguidores. Se eles desaprovarem, a institucionalidade pode não resistir.  
  • Este risco existe – e não é irrelevante – porque Bolsonaro foi eleito com a promessa niilista de governar sem os políticos (pois estes – com exceção de alguns aliados – seriam impuros). Como se vê após um ano, não deu muito certo.
  • A partir dessa visão que Bolsonaro usou, a atual negociação com partidos é uma prática condenável da “velha política”. Bolsonaro pode ser acusado de estar se rendendo aos vilões. Terá de convencer sua base de apoio de que o que falou desde 2014 não vale mais ou que está criando um universo paralelo.   
  • A história recente mostra que estes flertes de Bolsonaro com a vida normal podem ser efêmeros. No início do mandato, o presidente abriu canais com partidos para obter apoio no Congresso em troca de cargos na administração. O encarregado dessa negociação era o ministro Onyx Lorenzoni, então na Casa Civil. Mas promessas não cumpridas pelo governo e ataques do presidente ao Congresso e aos políticos quebraram a relação.   

Se levada a sério e concretizada, a iniciativa do presidente pode pelo menos tornar a cena política mais funcional e civilizada, algo essencial para que o país possa pensar exclusivamente no combate ao coronavírus.

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