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Política

Essencial do dia: o silêncio de Alcolumbre, o chiado de Aras, os sussurros de repúdio e as trombetas do petróleo

diego@vortex.media

Como antecipamos ontem, não houve mudança na estratégia das lideranças de Brasília para conter os desvarios de Jair Bolsonaro: o objetivo dos movimentos delas é isolar o presidente e minimizar os danos que ele possa causar ao país. Também explicamos por que os militares não são um problema — ao contrário. Hoje, transcorreu o que se esperava ou estava combinado desde o rolê do AI-5. Em resumo, uma sucessão monótona, embora necessária, de notas de repúdio de todas as forças políticas e institucionais. Até o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, viu-se obrigado a afirmar que as Forças Armadas “são obedientes à Constituição”.

Como analisou mais cedo Leandro Loyola: “Bolsonaro não está preocupado com os brasileiros que vão morrer; está preocupado com a recessão que pode inviabilizar seu governo e sua reeleição e com futuros adversários em 2022”.

Pela manhã, também como esperado, Bolsonaro, após ser enquadrado pelos militares e de receber (mais uma vez) recados do Supremo, tentou minimizar os atos de ontem. Falou em defender liberdade e democracia. A frase “Eu sou a Constituição”, embora irresistível, parece ter sido uma falha de raciocínio. Confira aqui.

Fato ou factoide?

A única surpresa do dia veio do procurador-Geral da República, Augusto Aras. Ele pediu, ao Supremo, autorização para abrir inquérito com o objetivo de investigar deputados federais que teriam ajudado a organizar os protestos. A Lei de Segurança Nacional criminaliza atos que promovam a subversão da ordem democrática.

Um gesto — nascido da pressão interna e do STF, mas ainda assim um gesto. Não é uma investigação contra Bolsonaro.

É fácil e rápido averiguar se deputados valeram-se do cargo para organizar, dolosamente, os atos antidemocráticos. Se não houver denúncia ou arquivamento em poucas semanas, trata-se de fumaça por parte do PGR.

Fumaça é dar uma satisfação interna e externa em face da pressão e da desmoralização crescente da PGR. A intenção aparente é que se leia “PGR investiga Bolsonaro”. Criar um fato político bem superior ao fato jurídico real.

Será uma imensa surpresa se esse pedido de inquérito marcar qualquer mudança substancial no tratamento, digamos, simpático de Aras ao presidente da República.

Cuidando dos seus

Não passou despercebido, entre as demais lideranças de Brasília, o silêncio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, acerca dos atos antidemocráticos de ontem. Nem o modo pelo qual ele evitou que senadores repudiassem o rolê do AI-5. Alcolumbre se desgarrou dos adultos da sala. 

As razões ficarão claras em breve.

Não é o apocalipse — ainda

Um internauta desatento possivelmente acredita que viu hoje um crash no mercado de petróleo. Que o valor do barril no mundo foi a zero. Não houve isso, embora a situação seja extremamente preocupante. 

O cenário é terrível, mas cuidado com observações peremptórias sobre o mercado de petróleo. São os contratos do barril WTI (cru americano) de maio que estão no negativo. O barril Brent (principal padrão internacional) está a 26 dólares. Não existe um preço universal. A Petrobras não desabou.

Por que não desabou? Porque há uma diferença enorme entre o mercado de WTI e o chamado mercado físico. O WTI é extremamente importante, cada vez mais, especialmente nos contratos do mercado e para quem busca liquidez – ou especula. É uma referência e tanto. No Brasil não é diferente. Mas o complexo mercado de petróleo não se esgota no WTI.

A maneira como o mercado de petróleo influencia nossa economia é algo complicado, assunto para gente que estuda isso a fundo. É evidente que, com o mundo parado, haverá consequências pesadas para todos nós. Mas cuidado com projeções. A situação é volátil. Os movimentos de hoje provavelmente são um prenúncio de uma crise profunda e duradoura no setor, com repercussões fortemente negativas na cadeia produtiva de óleo e gás – e em quem depende dessa cadeia.

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