(Marcello Casal Jr./Agência Brasil)
Política

Rolê do AI-5: Bolsonaro repete a tática para intimidar e testar ministros

leandro@vortex.media

O presidente Jair Bolsonaro coloca em prática nesta segunda-feira (20/04) uma repetição da tática de intimidação que usou em outras ocasiões. Com atitudes condenáveis, Bolsonaro testa os limites da democracia, a lealdade de seus subordinados e busca intimidar os outros Poderes, que considera inimigos.

No domingo (19/04), em plena quarentena, o presidente participou novamente de um ato de cunho autoritário, que pedia uma intervenção militar, com fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (em resumo, uma ditadura sob Bolsonaro) e a reedição de algo como uma novo AI-5 (ato mais radical da ditadura militar). Nesta segunda, em postura contraditória, Bolsonaro negou apoio a iniciativas ditatoriais.

  • Não é maluquice, é estratégia. Bolsonaro fez isso em várias ocasiões, a mais recente em 15 de março. Como da outra vez, teve um surto autoritário calculado num dia e negou em seguida. A tática do morde e assopra é uma forma de atrair atenção e mandar recados.
  • Com o ato de ontem, Bolsonaro tomou um pouco da atenção do país, toda concentrada nos números crescentes de casos de infectados e mortos pelo coronavírus. Deu apoio a uma execrável ideia de fechar o Congresso e o Supremo, fez o suficiente para incentivar novos protestos e não tocou no tema da pandemia. É uma forma de aparecer sem precisar tratar do tema mais presente e delicado.
  • Bolsonaro não está preocupado com os brasileiros que vão morrer; está preocupado com a recessão que pode inviabilizar seu governo e sua reeleição e com futuros adversários em 2022. Com o ato de ontem, deu apoio público a seus seguidores mais radicais, que atuam nas redes sociais e topam ir às ruas defender sua visão minoritária no mundo civilizado. É uma forma de, como sempre, manter sua base unida. Bolsonaro está falando para os bolsonaristas.
  • Participar do ato também serviu como forma de Bolsonaro incentivar novas carreatas e atos em favor do relaxamento do isolamento e reabertura do comércio nos próximos dias. O presidente conta com isso como forma de pressionar os governadores e levar a situação à beira do insuportável. É uma estratégia de guerrilha. Seus alvos preferenciais são João Dória, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio de Janeiro. Após o ato, 20 dos 27 governadores assinaram documento condenando a postura de Bolsonaro. Era o óbvio a fazer. 
  • Os outros alvos são o Congresso e o Judiciário. Como em março, os manifestantes atacaram as duas instituições e pediram uma intervenção militar para fechá-las. Ao participar ontem, Bolsonaro usou os atos como forma de intimidar os dois poderes. Sem capacidade para negociar politicamente, o presidente quer permanecer no jogo pela força, por meio de uma ameaça rasteira. É primitivo, algo impensável em 2020, mas Bolsonaro faz política pelo conflito.
  • A tática da intimidação ficou clara também nas redes sociais. O presidente se deixou fotografar e permitiu a postagem de uma foto em que come com os três filhos, numa sala onde há um fuzil na parede.
  • A participação no ato foi, obviamente, um enorme desrespeito do presidente ao isolamento social recomendado para combater o coronavírus. Mas foi também um teste de lealdade do novo ministro da Saúde. Nomeado três dias antes, Nelson Teich não comentou o ato do presidente. Teich está no cargo porque Bolsonaro queria alguém mais obediente e submetido a suas opiniões do que Luiz Henrique Mandetta.
  • Ao concordar com os mantras pela ditadura e contra a democracia, Bolsonaro também testa a subserviência do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Num mundo em condições normais, o ministro da Justiça deve ser dos primeiros a gritar contra ataques à democracia. Moro ficou em silêncio.
  • Bolsonaro também testa a fidelidade dos ministros militares. Faz parte do imaginário que Bolsonaro, por ter tantos ministros militares, tem apoio das Forças Armadas e pode usá-las contra adversários. Os militares querem distância de manifestações contra a democracia, mas não podem parecer insubordinados ao presidente. Bolsonaro os colocou em uma fria.

Bolsonaro é, hoje, um presidente com pouco poder. Perdeu a disputa pública por suas atitudes negacionistas diante da pandemia do coronavírus e sofreu um revés em sua popularidade e até nas redes sociais, onde sempre reinou. Seu objetivo é recuperar protagonismo da forma que conhece, o conflito.

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