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Política

Análise: um militar forte projeta uma Casa Civil fraca

diego@vortex.media

Os principais líderes de Brasília amanheceram nesta quinta com uma convicção reforçada: o governo Jair Bolsonaro passa por seu pior e mais frágil momento político – e, diante da opção de um militar para a Casa Civil, não há perspectiva de melhora. Forma-se um consenso, proceda ele ou não, de que o Planalto é incapaz de estabelecer prioridades claras para sua agenda legislativa e, não menos importante, para sua interlocução institucional com Estados e municípios. E é incapaz disso em função da ausência de um czar político. Ou, ao menos, de um núcleo político forte, que tenha poder de negociação e coordenação interna (junto aos ministérios) e externa (junto a parlamentares, sobretudo).

Os políticos sentem falta, portanto, de uma Casa Civil tradicional. Sem ela, prevalece a inoperância, com consequências inevitáveis no Congresso. Mesmo que ocupada por um militar, e especialmente se ocupada por um militar, e não por um político versado na linguagem do Parlamento, não há capacidade operacional para atacar (aprovar projetos, MPs e reformas) e para defender (desarmar conflitos cotidianos e conter crises agudas). Com PECs pululando do governo e partidos cada vez mais fragmentados, a necessidade de uma Casa Civil forte nunca foi tão evidente.

Um militar como Braga Netto pode projetar força para seus pares e para segmentos da população. Para o Congresso, projeta fragilidade – incapacidade para atender demandas de quem define o que vira lei ou não. Um deputado ou um senador quer um interlocutor que entenda suas necessidades políticas e dialogue em função delas. A presença de um general sinaliza que não há conversa; ou não a conversa que o parlamentar gostaria.

Nem toda conversa política se dá em termos de sacanagem. Ressalte-se que Bolsonaro resiste ao fisiologismo que prevaleceu nos últimos 30 anos. Mas nem todo diálogo político se sustenta em trocas antirrepublicanas – em corrupção. Há negociações legítimas e acordos políticos que prescindem de verbas ou cargos. Por óbvio, a ruptura com a linguagem dos cargos e das emendas como método tradicional de compra de votos dificulta imensamente a tarefa de se negociar com o Congresso. (Onyx que o diga.) Haverá menos armas à disposição do general Braga Netto para travar as batalhas do governo no Parlamento.

A correta compreensão do jogo político em 2020 confirma a percepção dos líderes de Brasília. A Casa Civil, ou o Planalto de modo geral, requer um exímio diplomata da política, do trato suave e estratégico com deputados e senadores que precisam ser convencidos, não comprados. Ninguém acha ser impossível que Braga Netto consiga desempenhar – aprender, na realidade – essa função. Mas ninguém aposta que ele será capaz, ou terá condições objetivas, de fazer isso.

Essa missão poderia ser exercida, em parte, pelo próprio presidente, mas, apesar de sua experiência legislativa, falta-lhe vocação e vontade. De todos os atributos que Bolsonaro pode ter, a arte da diplomacia não consta entre eles.

A falta de fé no sucesso de Braga Netto, ou de qualquer outro militar, na Casa Civil já leva políticos a cogitar uma solução a ser proposta ali na frente: Rogério Marinho. Ele acaba de ser nomeado ministro do Desenvolvimento Regional, após uma exitosa participação na reforma da Previdência. Diante da escassez de quadros políticos próximos a Bolsonaro, pode ser uma alternativa.

Se políticos grandes já especulam sobre o sucessor do sucessor da Casa Civil, o leitor pode supor o que julgam sobre a possibilidade de aprovação de reformas econômicas neste ano de eleições municipais. Ganha uma viagem à Disney quem adivinhar a resposta.

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