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Política

O dia da cascata em Brasília

diego@vortex.media

O primeiro dia de trabalho no ano do Congresso e do Judiciário seguiu o rito previsível de asseverar previsibilidade pretérita e futura onde ela não existe. Foi como sempre: muito discurso empolado e pouco compromisso real. Os salamaleques e a afetação das cerimônias não escondem a falta de substância e honestidade delas. É um exercício institucional que se reduz, como tantos nessa República, ao exercício político de se falar muito para se dizer pouco. Ou, nos bons momentos, repetir platitudes vazias sobre diálogo, pacificação e harmonia. A se acreditar nos discursos, vivemos na Noruega.

O caráter ritualístico, performático e repetitivo do dia que inaugura oficialmente o ano político e judiciário bota a plateia para dormir. As altas doses de tédio dopam todos nós, mesmo os que estão em estado de alerta sobre a situação do país. Difícil extrair algo de útil, que possa iluminar como, de fato e concretamente, os homens que chefiam os Três Poderes pretendem resolver os problemas do Brasil.

Em momentos como esse, as ausências – aquilo que não é dito – tendem a revelar pequenas verdades sobre Brasília. Ou, no mínimo, açulam perguntas importantes. Damos de barato que as coisas são assim e assim serão, sem nos questionar se não poderiam, ou deveriam, ser diferentes.

A começar pelo começo. Por que, no calendário de Brasília, o ano começa em fevereiro, com exceção relativa do Executivo (muitos ministros do governo tiram férias), e, no calendário dos demais brasileiros, ele começa em janeiro? Ninguém espera que as Excelências trabalhem 24 horas por dia, nem que não tenham algum descanso. 

Mas não há como defender que o Judiciário tenha dois recessos por ano (janeiro e julho) e que o Parlamento tenha os mesmos dois recessos, além do recesso informal (um semestre, na verdade) para as eleições municipais. Sem mencionar que a semana, em Brasília, vai de terça a quinta. Segunda e sexta são quase dias facultativos. Isso não vale para todos os funcionários públicos da capital. Mas ninguém pode negar que o biorritmo da cidade é este: três dias úteis por semana. O Executivo não segue tanto esse calendário, mas dele depende, com frequência, para fazer seu trabalho. De qualquer modo, isso não muda a prevalência dos maus hábitos na capital.

Não se afirma aqui que, diante dessa tradição, os ministros, parlamentares e os numerosos funcionários públicos federais que trabalham em Brasília sejam preguiçosos. Muitos – muitos mesmo – trabalham bastante e com afinco. Mas os anos de dez meses com semanas de três dias não contribuem para o ritmo coletivo necessário ao bom funcionamento do Poder.

Alguém erra em Brasília?

Algo que talvez você não perceba, aquilo que talvez seja a ausência mais significativa nos discursos, seja o reconhecimento de erros ou de limitações. Nas palavras oficiais, tudo está funcionando como deveria. Há apenas avanços e promessas de mais realizações. É nesse sentido que o exercício institucional de prestar contas torna-se um exercício político. 

O dever institucional de avaliar honesta e rigorosamente o que foi feito e de indicar, com sobriedade, o que pode ser feito não deveria comportar omissões, meias verdades e, em não poucos casos, mentiras evidentes. Quem enxerga esse dever constitucional como um ato político pode tolerar ou ignorar falsidades. O domínio real da política, afinal, é constituído pelo engodo e, sempre que conveniente, dominado pela mentira. Mas não poderia ou deveria ser assim.

Ao não reconhecer erros no trabalho pretérito ou limitações no trabalho futuro, as autoridades que comandam os Três Poderes ofendem a inteligência do público e, possivelmente, colaboram com o lento e pernicioso processo de erosão na confiança dos brasileiros em suas instituições. Ao prometer uma miríade de reformas e programas irrealizáveis, os mesmos personagens sabotam a previsibilidade que tanto vendem. São raros os que admitem dificuldades, mesmo que tentem transmitir uma mensagem de otimismo.

Os discursos e a falação do dia de volta aos trabalhos em Brasília podem parecer um fato político menor, que dispensa atenção. E aí reside o problema. Deveriam ser um fato político significativo. Deveriam ser um momento em que os brasileiros fossem informados com honestidade e equilíbrio sobre os rumos do país. Parolagem de diálogo, pacificação e harmonia e slogans decorrentes de palavras ocas não dizem, por óbvio, nada. Ou melhor: dizem muito.

Serviço:

A mensagem do presidente ao Congresso

O discurso do presidente do Supremo sobre a abertura do ano Judiciário

Assista à sessão de abertura do ano Legislativo

Informações sobre o discurso do presidente do Senado sobre o começo do ano Legislativo

Informações sobre o discurso do presidente da Câmara sobre o começo do ano Legislativo

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