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Política

Análise especial: A hora e vez de Paulo Guedes

diego@vortex.media

Janeiro encerra-se com dois fatos políticos significativos. Deles, mas não só em função deles, resulta um terceiro, ainda a ser observado. Eles definirão o que será feito – e o que não será feito – em Brasília no futuro próximo. (Fatos políticos, porém, são sempre submetidos às crises, passageiras ou crônicas, que perfazem a vida política, acometendo-na de surpresa, como gripes ou resfriados que sabemos estar no porvir.)

Os dois fatos:

O cisma entre Bolsonaro e Moro se revelou incontornável. Os dois não cabem no mesmo governo. O ministro da Justiça gostaria de ir para o Supremo neste ano, na vaga de Celso de Mello. Se não for indicado, as disputas políticas constantes entre ambos – e elas prosseguirão – tendem a conflagrar o governo numa guerra civil. Não haveria vencedores. Moro pode perder o cargo, mas Bolsonaro pode perder ainda mais: parte expressiva de sua base de apoio popular. Uma possível (talvez inevitável) separação entre esses dois pólos políticos aleijaria profundamente o presidente – sua capacidade de governar e sua força eleitoral em 2022.

A humilhação pública imposta por Bolsonaro a Onyx. Em vez de finalmente demitir o ministro da Casa Civil, ou deslocá-lo para outra pasta, o presidente agiu de modo truculento com um aliado antigo – e que sabe muito, muito. Políticos são criaturas especialmente vaidosas. Podem esquecer um gesto de gratidão. Jamais esquecem o opróbrio. Não haverá desfecho feliz nesse caso – mesmo que, em público, possa parecer que sim. A principal consequência, neste momento, contudo, é a transferência de poder da Casa Civil para a Economia, por meio do PPI, o principal instrumento do governo para vender estatais e atrair investimentos privados em setores estratégicos.

A consequência imediata:

Paulo Guedes, que já começara forte o governo Bolsonaro, passa a acumular um poder ainda maior. O termo superministro não é mais suficiente para descrever sua força política neste início de 2020. Guedes virou o grão-vizir do governo. Enquanto a ala mais radical e ideológica de Bolsonaro causa problemas ao país, cria insistentes crises políticas e produz ruído para alimentar os trolls (vide Weintraub), Guedes e sua equipe entregam soluções – concorde-se ou não com o teor delas. Com o PPI sob seu comando, Guedes e sua turma têm tudo o que queriam desde que chegaram a Brasília. Em especial para cumprir a missão em que não podem falhar: consertar, com a ajuda do Congresso, as contas públicas brasileiras, antes que elas entrem em colapso.

Guedes adaptou-se com rapidez e astúcia a Brasília e, não menos importante, a Bolsonaro. Como bom estrategista, ele sabe apresentar seus projetos e suas ideias ao presidente – pois sabe se colocar no lugar do interlocutor e antecipar o movimento dele, mitigando as chances de receber um “não”. Sabe que não adianta peitar Bolsonaro; não há resultado mediante a insistência racional no mesmo argumento. É por isso que Guedes, cada vez mais em público, remete ao presidente a responsabilidade sobre a lentidão de projetos ou reformas. Pode parecer omissão ou sabotagem. Mas, no modo como Guedes expõe seus argumentos, apenas sublinha a autoridade presidencial e a sabedoria política de Bolsonaro. A um só tempo, Guedes livra-se da encrenca e agrada o ego do chefe. É uma habilidade para poucos.

Duas eleições no caminho

Guedes começa o ano político com muito poder. Mas, reitere-se, tem muito poder num governo que tende a se enfraquecer – que gasta seu capital político no Twitter e no projeto de 2022 (criação da Aliança e proteção incondicional à família presidencial). É um governo sem articulação política efetiva no Congresso. E, hoje, Guedes talvez dependa mais do centrão do que de Bolsonaro.

E aqui reside o limite do poder de Guedes. Ele tem capital para negociar com o Congresso. Mas não tem aptidão para isso, como restou evidente na condução da reforma da Previdência. Se ano passado essas tratativas já eram difíceis, em 2020 serão impossíveis. 

É um ano que será encurtado por duas eleições. As municipais, no segundo semestre. E as Legislativas, com a disputa pelas Presidências da Câmara e do Senado no início de 2021. As principais lideranças partidárias estão muito mais preocupadas com as eleições de 2021 do que com as reformas que farão fila no Congresso.

Não adianta acreditar que Rodrigo Maia salvará as reformas neste ano. Ele pode contribuir, mas também está concentrado, como qualquer político, no próximo passo. Na Câmara, Marcos Pereira (Republicanos) e Arthur Lira (PP) estão em campanha. E, como de hábito, a campanha legislativa atrela-se a acordos nas eleições municipais. Em suma: para os políticos, é hora de fazer política. Se sobrar tempo e não houver grande oposição, tocam-se reformas.

Guedes, portanto, acumula poder num momento em que, talvez, não possa gastá-lo como gostaria. Se tentar e não conseguir, sairá derrotado. É da ordem natural da política. Se não tentar, pode ter mais sucesso investindo no Congresso em 2021, a depender das circunstâncias.

Seja como for, um político astuto não empurraria agora ao Congresso uma agenda pesada.

A questão, portanto, impõe-se: o quão ladino será Paulo Guedes? Dessa resposta depende, em larga medida, a aprovação da agenda econômica do governo Guedes. Quer dizer, do governo Bolsonaro.

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