(Valter Campanato/Agência Brasil)
Política

Ao tratorar Onyx, Bolsonaro cria adversário e piora diálogo com Congresso

A forma como o presidente Jair Bolsonaro conduz a iminente demissão do ministro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), é o caminho mais curto para cultivar inimigos e pode dificultar ainda mais seu diálogo com os partidos e o Congresso.

Por que isso importa?

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, foi um dos primeiros aliados de Bolsonaro na campanha eleitoral. Sua demissão, da forma como é conduzida, pode criar arestas para o governo no Congresso.

Bolsonaro demitiu publicamente um assessor de Lorenzoni, Vicente Santini – aliás, indicado não pelo ministro, mas por seu filho Eduardo Bolsonaro -, e tirou de sua alçada o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o único tema relevante ainda sob sua responsabilidade.

  • Pode-se fazer quase tudo na política, mas tudo depende do jeito como se faz. A forma como o presidente se livra de Onyx Lorenzoni é a pior possível. Esvaziar um ministro durante as férias é uma forma truculenta de demitir. No mundo normal, o correto seria esperar a volta de Onyx.
  • Onyx Lorenzoni foi o primeiro político de destaque nacional, de um partido relevante, a apoiar publicamente Bolsonaro. Engajou-se em sua campanha quando ele ainda era apenas um concorrente com potencial, ajudou-o a buscar alianças, falou em seu favor para quebrar resistências no mainstream. Demitir um aliado assim e de forma deselengate só traz perdas. O recado que Bolsonaro passa para o meio político é que não tem gratidão e não se importa em preservar aliados. É um pecado mortal na política.
  • Bolsonaro também demonstra falta de critério. Enquanto demite Onyx de forma deselegante, mantém o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, denunciado pelo Ministério Público Federal por um esquema de corrupção eleitoral, e o ministro da Secretaria de Comunicação, Fabio Wajngarten, investigado por conflito de interesses no exercício do cargo.
  • A demissão de Onyx passa ao meio político o recado de que o Bolsonaro presidente se comporta como o Bolsonaro deputado: um político que caminha sozinho, não se preocupa em formar alianças ou preservar aliados. Essa postura dificulta acordos, tudo que o governo precisa.
  • A atitude se soma a outras atos de individualismo do presidente, como a saída do PSL. Um ano depois de o partido lhe dar guarida para a disputa da eleição, Bolsonaro saiu e levou deputados para criar um partido para si e para os filhos, o Aliança para o Brasil.
  • A demissão de Onyx pode acarretar diretamente problemas para o diálogo com o Congresso num ano em que o governo quer aprovar as reformas administrativa e tributária, em um cenário desfavorável. Que partido pode confiar no presidente como aliado, ao observar o tratamento dispensado ao ministro da Casa Civil?
  • O diálogo fica pior em especial com o DEM, partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. É justamente dos dois que Bolsonaro e o governo mais precisam para aprovar alguma coisa das reformas em um ano eleitoral.
  • Um político não pode evitar ter inimigos, mas deve evitar fazer inimigos à toa. Da forma como trata o ministro, o presidente dá condições para que ele se torne um inimigo. No caso, um inimigo que participou da sua campanha eleitoral, da montagem do governo e de sua condução no primeiro ano. Bolsonaro já fez isso com a deputada Joice Hasselmann, com resultados conhecidos: ex-bolsonarista radical, ela provocou um estrago no seu depoimento à CPMI das Fake News e aproximou-se do governador de São Paulo, João Doria, adversário de Bolsonaro. Não foi uma estratégia vitoriosa com Joice, dificilmente será com Onyx, um político bem mais experiente.

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