(Foto: Alan Santos/PR)
Política

Na ONU, Brasil votou mais com Venezuela do que com os EUA e Israel em 2019

spigariol@vortex.media

O Brasil se alinhou mais a Venezuela, China e Rússia do que aos Estados Unidos nas 159 votações realizadas na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas e em suas comissões temáticas em 2019.

Pesquisa do Vortex em documentos da organização revela que, nas deliberações ocorridas entre outubro e novembro, a missão do Itamaraty junto à ONU em Nova York acompanhou a posição norte-americana em 22% dos casos. Por outro lado, Brasília se alinhou a Caracas em 63% dos votos registrados.

Por que isso importa?

Os números contrastam com a postura do governo de Jair Bolsonaro, que busca fortalecer sua aliança com Washington. No entanto, também confirmam que o Itamaraty na ONU não adotou uma posição de “alinhamento automático” com o Departamento de Estado americano.

O dado chama a atenção devido ao alinhamento com os Estados Unidos, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, além de posturas recentes do país em alguns temas de política externa e votações na ONU.

O levantamento inclui 93 deliberações da Primeira Comissão (Desarmamento), 25 da Segunda (Econômica e Financeira), 25 da Terceira (Social, Humanitária e Cultural), 13 da Quarta Comissão (Política Especial e Descolonização) e três do plenário. As resoluções aprovadas pela Quinta (Administrativa e Orçamentária) e Sexta (Jurídica) comissões não foram consideradas, pois foram adotadas por unanimidade – sem registro dos votos.

Tabela ONU

Ao Vortex, uma fonte com conhecimento direto do assunto diz que não existe orientação do Itamaraty para o chamado “alinhamento automático” aos Estados Unidos em votações, mas a posição dos americanos é considerada por Brasília ao enviar instruções para como os diplomatas brasileiros devem agir em Nova York. Contudo, diplomatas conseguem seguir as posições tradicionais do Brasil em boa parte das resoluções votadas.

  • Como os assuntos abordados em organismos multilaterais são variados, diversas decisões da diplomacia brasileira são tomadas sem orientação direta do Palácio do Planalto, seguindo a tradição do Itamaraty
  • Mesmo o chanceler Ernesto Araújo, que assina todas as instruções enviadas aos postos no exterior, deixa passar os votos “na inércia”.

Ao saber dos números, um experiente diplomata brasileiro se disse “aliviado” com a posição brasileira. Outro integrante do Itamaraty garantiu que o resultado da pesquisa não surpreende, pois, mesmo em situações de alinhamento, “é difícil que um país acompanhe votos [de outro] totalmente”.

Servidores da chancelaria afirmam também que as dinâmicas e os interesses dos países mudam entre as diferentes comissões da Assembleia Geral. “Às vezes, acontece de um país adotar certas posições em um órgão para ‘colher’ em outro”, avalia um dos profissionais ouvidos.

“Algumas figuras tentam fazer avançar a ideia de que nós deveríamos negligenciar a relação com os Estados Unidos, de que nós deveríamos buscar outros parceiros e deixar os Estados Unidos em segundo lugar”, disse o assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, Filipe Garcia Martins, em um seminário recente na Câmara dos Deputados. “E, aí, sempre que alguém desafia essa ideia, isso é classificado como uma opção de alinhamento automático. Os Estados Unidos são uma nação que sempre teve respeito profundo pelas posições brasileiras”, analisa.

De acordo com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, Brasil e Estados Unidos têm uma “história bonita”, mas que “não é de alinhamento automático”. “É uma parceria que dá bons frutos para os dois países”, afirmou o parlamentar no mesmo seminário.

A preocupação do governo Bolsonaro concentra-se em temas prioritários de seu eleitorado – o que provocou as mudanças mais significativas até agora, como o voto brasileiro contra uma resolução da Assembleia Geral que condena o embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba. Nos últimos 26 anos, Brasília havia aderido à postura da maioria da Assembleia pela condenação ao bloqueio. “Este é um governo que apóia Israel e leva muito em consideração o que os EUA pensam e desejam”, avalia um experiente diplomata.

Tabela ONU

Para Guilherme Casarões, professor de ciência política e relações internacionais da FGV, o Governo Bolsonaro definiu áreas prioritárias para quebra de paradigmas em sua política externa. “Existe uma inflexão muito forte nos votos do Brasil no Conselho de Direitos Humanos (Genebra) com relação à pauta de costumes, saúde sexual e reprodutiva de mulheres e identidade de gênero. O Brasil acabou se alinhando a países como Paquistão e Emirados Árabes Unidos nesses temas”, diz.

Com relação a Cuba e Venezuela, Casarões entende que uma oposição sistemática a esses países geraria desgastes com os Brics, já que China e Rússia são aliadas importantes de Havana e Caracas. “Pode ter havido um cálculo de que Cuba faria um barulho muito grande sobre isso”, diz.

Relações com Israel

Em outro ponto sensível para a agenda ideológica do bolsonarismo, a aproximação com Israel foi mais tímida do que o esperado. Três comissões avaliaram um total de nove resoluções pró-Palestina e contrárias aos interesses israelenses. Em apenas uma das votações a posição do Brasil foi idêntica à de Israel em resolução sobre o “trabalho do Comitê Especial para investigar práticas israelenses que afetam os direitos humanos do povo palestino e outros árabes dos territórios ocupados”. Esse texto foi aprovado por estreita maioria: 82 votos a favor, 11 contra e 78 abstenções.

As datas das votações coincidiram com a visita de Jair Bolsonaro a países do Oriente Médio, o que pressionou o governo brasileiro a ser mais moderado em suas posturas. Nas nove deliberações, o Brasil votou cinco vezes a favor dos palestinos, absteve-se em três e votou com Israel em somente uma. Os EUA, por outro lado, votaram contra os nove textos, assim como Tel-Aviv.

“Qualquer voto pró-Israel na questão da Palestina já mostra uma quebra muito forte na tradição que o Brasil vinha adotando anteriormente”, analisa Casarões. Segundo ele, Brasília raramente divergia do voto majoritário com relação ao conflito Israel-Palestina, “independentemente da linha ideológica do governo”.

Para o professor, é “reconfortante” que o Brasil tenha reafirmado seu compromisso com a criação do estado da Palestina em um pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU. “Há uma retórica de Jair Bolsonaro de inflexão radical nessa questão, ainda que isso não tenha se refletido totalmente no plano multilateral”.

Box de transparência

Entrevistas e documentos

Vortex ouviu cinco diplomatas e analisou cerca de 170 documentos da ONU, incluindo 159 registros de votação. O deputado Eduardo Bolsonaro e o assessor Filipe Garcia Martins foram ouvidos em um seminário da Câmara. Por telefone, a reportagem conversou com Guilherme Casarões.

Como os dados foram coletados manualmente em documentos, foram selecionados apenas alguns países para a comparação. A ONU só apresenta dados consolidados em sistema eletrônico para votações do plenário da Assembleia Geral.

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