Política

Anúncio de taxação mostra que “amizade” de Trump não traz vantagens como Bolsonaro apregoa

leandro@vortex.media

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem uma fixação por superávits comerciais – quando o saldo entre importações e exportações é positivo para o país. Sua decisão de voltar a taxar o aço e o alumínio brasileiros está incluída num contexto maior da economia americana, mas expõe as fragilidades do relacionamento entre Brasil e Estados Unidos no governo Bolsonaro.

Por que isso importa?

A decisão americana pode ter forte impacto na indústria siderúrgica brasileira. Com seus produtos mais caros, sua capacidade de exportar vai cair e gerar perdas financeiras. A decisão também mostra a fragilidade da linha de atuação que rege o relacionamento Brasil-Estados Unidos no momento.

Em seu tuíte, Trump simplesmente disse que Brasil e Argentina desvalorizaram suas moedas de propósito – um eufemismo para trapacearam – o que está prejudicando agricultores americanos. A taxação sobre os metais seria um revide, em forma de compensação financeira.

  • beira a fantasia achar que o Brasil desvalorizou o real. A queda da moeda brasileira – e a consequente alta do dólar – é resultado de vários fatores, não de uma manobra do Banco Central
  • a medida é prejudicial à própria indústria americana: como boa parte do aço consumido por lá é importado, a taxação encarece a produção. Foi a indústria americana quem convenceu Trump da última vez a isentar Brasil, Argentina e Austrália de pagarem taxas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio
  • a decisão intempestiva, normal para o modo de atuar de Trump, mostra a fragilidade da ideia que norteia o relacionamento Brasília-Washington no governo Bolsonaro. Segundo essa ideia, o presidente Jair Bolsonaro tem uma relação especial com Trump, o que pode trazer vantagens ao Brasil. A realidade não é essa
  • Trump não hesita em impor tarifas agora, assim como não deu tratamento especial ao Brasil na entrada do país na OCDE. Após uma festa do governo brasileiro com a promessa, Trump apenas manteve o cronograma inicial, que colocava a Argentina em primeiro lugar, e deixou os bolsonaristas constrangidos
  • sob Bolsonaro, o Brasil não só abraçou a ideia de Trump de aderir à OCDE, como aceitou no futuro dispensar o tratamento especial de país em desenvolvimento, do qual dispõe na Organização Mundial do Comércio. O enfraquecimento da OMC é um projeto americano. A taxação agora mostra o risco de o Brasil aderir a essa iniciativa: sem a posição privilegiada na OMC, o Brasil perde uma alternativa para buscar compensações a iniciativas como essa de Trump

Uma das histórias mais aterrorizantes do livro “Fear” (Medo), do jornalista Bob Woodward, explicita a obsessão de Trump com superávits comerciais e em levar vantagem em negócios, à moda de um simples negociante. Recém- eleito, Trump queria cancelar o acordo que os Estados Unidos firmaram com a Coréia do Sul após o fim da guerra da Coréia, em 1953. Assessores entraram em desespero.  

Leia também: Tribunal da OMC que julgará tarifas sobre aço pode travar por ação dos EUA

O acordo é amplamente favorável aos americanos: a Coréia do Sul permite a presença de 28.500 soldados americanos em seu território. Com isso, os Estados Unidos não só podem espionar a Coreia do Norte, como manter radares que detectam muito mais rápido se os imprevisíveis norte-coreanos lançarem mísseis. Em troca, os sul-coreanos podem exportar seus produtos aos Estados Unidos sem tarifas.

Donald Trump queria acabar com o acordo. Dizia não entender por que o país gastava tanto com a Coréia do Sul. Apesar das seguidas explicações didáticas, exigiu uma carta na qual comunicava o fim do acordo. Para evitar o desastre, Gary Cohn, então assessor econômico do presidente, simplesmente surrupiou da mesa de Trump a carta que rompia o acordo. Trump nunca reparou e esqueceu o assunto.

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