(Antonio Cruz/Agência Brasil)
Política

Contra os Estados Unidos, Brasil assina texto da ONU em repúdio ao neonazismo

spigariol@vortex.media

Ao lado de países como Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e China, o Brasil decidiu assinar um projeto de resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas escrito pela Rússia para o combate à “glorificação do nazismo, neo-nazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância”.

O texto, que inclui críticas a grupos racistas e a ideólogos de extrema-direita, foi aprovado pelo Terceiro Comitê da ONU, responsável por temas sociais, culturais e humanitários, no início do mês, por 121 votos a favor, 55 abstenções e duas rejeições – de Estados Unidos e Ucrânia. A matéria ainda precisa ser examinada pelo plenário da Assembleia Geral.

Por que isso importa?

O apoio ao documento coloca o Brasil ao lado de países normalmente atacados na gestão do ministro Ernesto Araújo, e do lado oposto dos Estados Unidos, aliado que o governo faz de tudo para agradar.

  • Proposto todos os anos desde 2012 pelos russos, o texto é tradicionalmente rejeitado pelos Estados Unidos, país com quem o governo Bolsonaro busca maior aproximação.
  • Na gestão do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o alinhamento com os Estados Unidos tem levado a mudanças em posturas tradicionais do país na ONU. Recentemente, o Brasil foi um dos três países a votar contra uma resolução que condenava o embargo americano a Cuba, que dura mais de 50 anos. O voto foi defendido por Araújo.
  • Desde 2014, durante os governos Lula, Dilma Rousseff e Michel Tmer, o governo brasileiro assina ou patrocina o projeto russo. Este ano, a missão brasileira em Nova York, chefiada pelo embaixador Mauro Vieira – chanceler no governo Dilma -, seguiu a mesma posição adotada em anos anteriores. 
  • Decisões como essa não são tomadas por embaixadores: partem do Itamaraty e saem com a assinatura do ministro das Relações Exteriores – no caso, Ernesto Araújo -, segundo um experiente diplomata ouvido pelo Vortex.

A ONU aponta o Brasil como um dos autores da matéria, ao lado de outros 22 países. Uma fonte com conhecimento direto do assunto afirma que, na verdade, a resolução é da Rússia e foi apenas co-patrocinada pelo Brasil.

Todos os anos, o texto causa discussões entre americanos e russos. Observadores internacionais afirmam que o objetivo da proposta russa é menos trabalhar contra os extremismos e mais constranger ex-repúblicas soviéticas – como Ucrânia e Armênia. Estes países erguem monumentos em homenagem a líderes de movimentos de libertação nacional, apontados pelo governo de Vladimir Putin como colaboradores de Adolf Hitler. 

Em seu preâmbulo, o texto propõe que a Assembleia Geral observe “com preocupação que, mesmo onde os neonazistas não participam formalmente do governo, a presença de ideólogos de extrema direita pode ter o efeito de injetar no governo e no discurso político as mesmas ideologias que tornam o neonazismo tão perigoso”. 

Os Estados Unidos afirmam que a matéria é uma peça de “propaganda cínica” da Rússia “em uma tentativa de exercer influência sobre seus vizinhos e criminalizar a liberdade de expressão, sem nenhum esforço genuíno para combater o nazismo, a discriminação ou o anti-semitismo”. 

Ainda que tenha mantido o teor incisivo de suas críticas a grupos racistas, neo-nazistas e de extrema direita, o texto deste ano suaviza um artigo sobre o racismo nas forças policiais. Em relação ao projeto aprovado no ano passado, foi suprimido o trecho em que o colegiado “manifesta preocupação com o fato de que os perfis étnicos e raciais e a violência policial contra pessoas em situações vulneráveis desencorajam as vítimas a procurar reparação devido à desconfiança no sistema legal”. 

Agora, o documento apenas “incentiva os Estados a melhorarem a diversidade nos órgãos de aplicação da lei e insta-os a tomarem todas as medidas apropriadas para facilitar a apresentação de reclamações e imporem sanções apropriadas contra aqueles do serviço público que cometeram violência racial ou que usaram discurso de ódio”.

Box de transparência

Contra o neonazismo

Vortex ouviu fontes no Itamaraty com conhecimento direto dos fatos, três diplomatas brasileiros de alto escalão e dois diplomatas estrangeiros com conhecimento direto do assunto. Também procurou o Ministério das Relações Exteriores. Vortex procurou ainda a Presidência da República e a Embaixada dos Estados Unidos, mas não obteve resposta.

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