(Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Política

AI-5: Guedes atribui a Lula poderes que ele não tem

leandro@vortex.media

O ministro da Economia, Paulo Guedes, entregou um presente político ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na entrevista em que cometeu o grave erro de citar o Ato Institucional número 5 como se fosse algo trivial – e não um dos piores e mais cruéis erros cometidos no Brasil -, Guedes atribuiu a Lula poderes que ele não tem e fortaleceu sua posição política.

Por que isso importa?

Ao justificar frases em favor do abominável Ato Institucional número 5, de 1968, o ministro da Economia, Paulo Guedes, cometeu um erro político grave.

Antes de tudo, ao justificar que alguém use qualquer pretexto atual para defender algo como o AI-5, o ministro comete um erro. Defender o AI-5 é ataque a um pilar da Constituição. Promulgado em 13 dezembro de 1968, o AI-5 destituiu a democracia, oficializou a ditadura e possibilitou a disseminação da perseguição política e atrocidades como a tortura e o assassinato cometidos pelo Estado.

Talvez contaminado pelo clima de paranoia que cerca o presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e seguidores mais radicais, Guedes relacionou discursos de Lula em favor de manifestações populares ao surgimento de outros discursos radicais, como pedidos de reedição de um AI-5, que desestabilizam o país. “Não se assustem se alguém pedir um AI-5”, disse.

Em resumo, Guedes colocou a mera presença de Lula fora da cadeia como um fator desestabilizador, capaz de abalar o país e o governo. Do ponto de vista político, Guedes reconheceu Lula como adversário poderoso, um equívoco estratégico.

  • Guedes errou ao dizer que menções a um novo AI-5 ocorreram devido a falas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O único a falar em AI-5 foi o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, no dia 31 de outubro. Lula só foi solto, e fez um discurso, uma semana depois, no dia 7 de novembro. Lula, portanto, nada disse que pudesse levar Eduardo Bolsonaro a mencionar o ato repugnante; não havia qualquer justificativa para isso
  • Guedes disse que Lula seria irresponsável ao conclamar, em discurso, os brasileiros para irem às ruas protestar. Lula realmente disse isso. Contudo, desde que o ex-presidente foi solto, o que chama a atenção é o contrário: fora o PT e alguns poucos aliados, não houve sinal de comoção pela soltura de Lula ou de mobilização para seguir seu discurso. Brasileiros não deixaram o que estavam fazendo para ir às ruas apoiar Lula. A frase de Guedes, no entanto, revela um receio e atribui a Lula esse poder
  • Guedes atribuiu a protestos em países da América Latina – e o posterior incentivo de Lula a manifestações – ao fato de as reformas econômicas que o governo enviou ao Congresso terem desacelerado. Nem no auge de sua popularidade Lula conseguiria algo assim
  • As reformas andam devagar por diversos problemas, como a falta de capacidade de o governo articular no Congresso, falta de pagamento de emendas aos parlamentares e da própria agenda dos congressistas, que estão pensando em outra coisa. Depois de quase dois anos na cadeia, Lula não tem esse poder. Tanto que alguns líderes políticos estão evitando encontrá-lo

A realidade até agora mostra que o ex-presidente Lula e o PT perderam muito poder. Lula tem estratégia política e liderança, mas tanto ele quanto seu partido não têm o condão de mobilizar a população.

Apenas num desabafo de Paulo Guedes o ex-presidente Lula ainda é capaz de tantas coisas. A fala de Guedes abre espaço para o ex-presidente se aproveitar, se quiser.

  • Lula poderá usar a menção de Guedes ao AI-5 como uma evidência de que o governo Bolsonaro tem intenções autoritárias
  • Poderá também dizer que Guedes apoia essa intenção para facilitar a aprovação de medidas econômicas liberais – como aconteceu durante o período da ditadura militar (1964-85), em especial após o AI-5

Para piorar, Guedes abriu um flanco para seus concorrentes internos, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ambos disputam a posição de “o adulto na sala” no governo Bolsonaro, aquele personagem que, em meio a atribulações criadas pelo presidente, seu filhos e seguidores, mantém o controle e serve de referência de racionalidade a investidores e sociedade.

Não à toa, rapidamente Maia disse que a frase de Guedes gera insegurança entre investidores e na sociedade. Guedes abriu espaço, Maia avançou e fez um ponto. Até o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, que não se posicionou quando Eduardo Bolsonaro defendeu o AI-5, desta vez foi ágil contra o ministro.

Fica claro na entrevista que, como todos os seus antecessores nos últimos 50 anos, o que Guedes quer é implementar seus planos sem que a política atrapalhe. É um sonho que nenhum desses antecessores conseguiu realizar. Está claro que, após dez meses, o ministro ainda não se habitou às vicissitudes de Brasília e do governo que defende.

Newsletter

Reportagens exclusivas e as notícias mais quentes na sua caixa de e-mail.

Valorizamos sua privacidade. Nunca enviaremos spam ou compartilharemos suas informações com terceiros.

Assine

O novo modo de fazer jornalismo de que o novo Brasil precisa.

Apoie o nosso jornalismo para que possamos ajudar a elevar a democracia.
Assine Vortex