Allan dos Santos durante depoimento na CPMI das Fake News (Roque de Sá/Agência Senado)
Política

A terça ocupada do Terça Livre na CPMI das Fake News

Allan dos Santos, jornalista do site Terça Livre, cumprimenta Eduardo Bolsonaro

Allan dos Santos, um dos donos do site Terça Livre, chegou ao Congresso Nacional de carona. Em suas redes sociais, postou um vídeo do trajeto, sorridente, com o solo de guitarra de Human Beings, da banda Van Halen, no último volume. Allan Terça Livre, como ficou conhecido o filósofo tornado jornalista da direita desde que fundou seu canal em 2014, estava pleno. Parecia antever a tarde de passeio que teria na nona sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, em que era o depoente, na condição de investigado por espalhar informações falsas. Os senadores e deputados que estiveram na sala para questionar Allan dos Santos sobre suas táticas quase esqueceram que ele estava ali. Estavam infinitamente mais preocupados em embaralhar os conceitos mais básicos de jornalismo e democracia. Em se esfalfar em ataques mútuos. E em confundir.

Por que isso importa?

Apurar quem é responsável por espalhar notícias falsas e compreender a extensão dos danos dessa prática para o processo democrático é fundamental – inclusive para se evitar a manipulação de processos eleitorais. A CPMI das Fake News não está sendo eficiente nessa investigação.

A CPMI foi instalada em setembro, com os nobres objetivos de “investigar os ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público; a utilização de perfis falsos para influenciar os resultados das eleições 2018; a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis da rede de computadores, bem como sobre agentes públicos; e o aliciamento e orientação de crianças para o cometimento de crimes de ódio e suicídio”. Vem se passando ao largo de qualquer um desses propósitos – e distanciou-se ainda mais na tarde dessa terça.

O deputado neotucano Alexandre Frota estava na primeira fila. Ele foi o depoente da semana passada e acusou o Palácio do Planalto de comandar uma milícia digital, cujos mentores são o filósofo Olavo de Carvalho, de quem Allan é devoto há muito tempo, e o próprio Allan Terça Livre. Do lado esquerdo de Frota, o senador petista Humberto Costa. Do direito, o zero três, deputado Eduardo Bolsonaro.

A relatora da CPMI, deputada Lídice da Mata, do PSB, iniciou sua fala lendo o requerimento 98, do deputado petista Rui Falcão, em que Allan é acusado de ser “um dos mais conhecidos propagadores de fake news na internet” – sem qualquer documento que baseasse a afirmação. Ela compilou, em seguida, uma série de “reportagens” do Terça Livre e as checagens de agências especializadas desmentindo as publicações. A lista: terra indígena foi vendida a empresa irlandesa; quadrilha na Bahia roubou R$ 68 milhões e entregou a Fernando Haddad; o jornalista Glenn Greenwald foi internado por infarto devido a uma overdose de cocaína; Roger Waters, ex-Pink Floyd, está envolvido com a corrupção do PT.

Allan dos Santos usou de sua palavra para reproduzir o palavrório e o ideário de Olavo, apontando o “deserto de ideias”, a “crise intelectual”, o “monopólio do comunismo e da esquerda”. Allan defendeu as publicações recorrendo a sua prerrogativa de jornalista de manter o sigilo da fonte. Ignorou preceitos básicos do jornalismo profissional, como a checagem de informações, a publicação de algo só depois da confirmação de sua veracidade. Embaralhou fato com opinião, como tanto se faz atualmente. Misturou tudo, bateu e colocou no balaio do direito de se expressar. “O jornalismo precisa ser livre para emitir suas opiniões. Estão querendo calar a liberdade de expressão dos jornalistas”, clamou Allan.

A partir dessas falas introdutórias, o show de equívocos em torno de princípios fundamentais se instalou. O deputado Marco Feliciano e o senador Randolfe Rodrigues bateram boca sobre um áudio de Feliciano convocando apoiadores para “espancar” digitalmente o senador. O que certamente foi espancado dali em diante foi o conceito de fake news.

Allan dos Santos durante depoimento na CPMI das Fake News

Apesar de a relatora Lídice da Mata afirmar que audiências públicas sobre o assunto foram realizadas, a real definição do que é uma notícia falsa esteve ausente da sessão. Parlamentares afins aos métodos de Allan argumentavam que fake news é o que a imprensa tradicional divulga sobre o presidente Bolsonaro. E, é importante se dizer, erros recentes de veículos de comunicação se prestam a alvará para esse tipo de distorção ilógica. Outros congressistas, mais alinhados à esquerda, tinham dificuldades de formular perguntas sobre os conteúdos por ele propagado, mais concentrados que estavam em tentar determinar uma ligação formal entre o Terça Livre e o Planalto.

Na balbúrdia, Allan chegou a dizer, com todas as letras, que “ser processado por calúnia não tem nada a ver com fake news”. Eduardo Bolsonaro foi além e ironizou: “hoje, o problema são os memes”. Alexandre Frota, um dos acusadores de Allan, não conseguiu formular uma pergunta certeira. David Miranda, marido de Glenn Greenwald, acabou concordando com Allan em alguns pontos, como o de que a Rede Globo precisa ser confrontada sobre fake news também. Todos vociferavam defender a liberdade de imprensa. Mas, no fundo, cada um manipulava o noticiário e a boataria para favorecer sua versão, sua ideologia.

A CPMI das Fake News ficou praticamente inativa até o racha interno do PSL e, depois, passou a ser usada entre correligionários como instrumento de ataque entre bolsonaristas e bivaristas. A oposição vinha assistindo quase passivamente ao embate. Até que o senador Randolfe, diante da peleja, tentou convocar o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, para depor. O governo interveio e o presidente da CPMI topou enrolar por duas semanas para o requerimento esfriar.

Não está claro a que essa CPMI se propõe de fato. O que ela está apurando e que benefício o Brasil vai ter com esse esforço, que, vale notar, tende a acabar como a maioria das investigações parlamentares: sem produzir resultados práticos além de horas a fio de um espetáculo doloroso. Nessa terça, foram quase seis horas de sessão. Allan saiu sorridente, como chegou. 

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