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Justiça

Cadê, Queiroz? O operador da família Bolsonaro pode esclarecer quem recebeu R$ 6 milhões em dinheiro vivo desviados do gabinete de Flávio

(atualizado: 18/06/2020, 17:47) diego@vortex.media

A prisão preventiva de Fabrício Queiroz, peça essencial no esquema da rachadinha nos gabinetes da família Bolsonaro, aumenta as chances de que os promotores descubram os destinatários finais do dinheiro público desviado da Assembleia Legislativa do Rio. Politicamente, aumenta também os riscos para família Bolsonaro, sobretudo para o presidente da República.

Aos fatos: os investigadores do Ministério Público do Rio já detêm evidências suficientes da existência de uma organização criminosa no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente. Esse esquema, que perdurou de 2007 a 2018, visava a desviar dinheiro público por meio de rachadinhas – do repasse de salários de assessores aos chefes da organização criminosa. O operador central desse esquema era Fabrício Queiroz, que organizava os desvios, recebia parte expressiva da grana e sacava, em dinheiro vivo, os recursos.

Esses fatos estão amparados em extratos bancários e de Imposto de Renda. Mensagens interceptadas pelos promotores e pela polícia corroboram fortemente as evidências bancárias. Trata-se de um esquema rudimentar de desvio de grana pública e de lavagem desse dinheiro. Rudimentar, mas eficiente.

Como operador principal da empreitada criminosa, Queiroz é o investigado com mais condições de esclarecer quem são sos beneficiários finais do dinheiro desviado. É o momento do caso em que testemunhas – normalmente delatores – tornam-se fundamentais. Sobretudo porque, após a lavagem, a maior parte do dinheiro desviado foi sacado em espécie. Portanto, deixou de ser rastreável.

É por essa necessidade da investigação que os promotores ainda não apresentaram denúncia contra Queiroz e os demais integrantes da organização criminosa. Há evidências mais do que suficientes para isso. Mas esse ato processual poderia dar mais uma chance para que Flávio Bolsonaro consiga interromper a investigação. É importante lembrar que os promotores lidam com um caso tecnicamente simples, mas politicamente difícil. Basta rememorar que o presidente do Supremo, Dias Toffoli, paralisou essa investigação por meses – e, com ela, todas as investigações no país que usavam elementos fornecidos pelo COAF, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Como se trata de um esquema familiar, com a participação da mulher e das duas filhas de Queiroz, além de amigos dele, aumentam as chances de que o operador da família Bolsonaro colabore com a investigação. As provas disponíveis tornam a condenação – e a prisão – de todos quase certa. Queiroz sabe disso. O que pode impedi-lo a colaborar? Qual o tamanho da lealdade dele a quem recebeu o dinheiro desviado?

É o que descobriremos.

As provas de um esquema tosco

O MP do Rio tem provas robustas de que Queiroz era o operador financeiro da organização criminosa. E de que uma conta dele no Itaú era uma conta ônibus, de passagem, como se diz no jargão do mundo criminal. Em resumo, essa conta era abastecida, sobretudo, com dinheiro desviado da Assembleia do Rio. De lá, era sacado em espécie. Ou servia para pagamentos de contas pessoais da família Bolsonaro – uma linha que exige mais investigação.

O que segue abaixo se restringe à participação de Queiroz na organização criminosa. Há outras linhas de investigação que apuram fatos envolvendo a família Bolsonaro em operações de lavagem de dinheiro – seja por meio de compra e venda de imóveis, seja por meio de transações com uma loja da Kopenhagen.

Segundo as evidências, entre 2007 e 2018 Queiroz recebeu R$ 2.062.360,52 de doze assessores de Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio. Foram 483 repasses (339 depósitos em dinheiro vivo, 127 transferências bancárias e 17 depósitos em cheques). Os três maiores depositantes eram empregados na Alerj e, não por acaso, seus familiares: sua mulher e duas filhas (todas funcionárias fantasmas, aliás).

Entre os assessores, há dois policiais que são amigos de Queiroz e até uma vizinha dele. No mesmo período, Queiroz recebeu cerca de R$ 900 mil em depósitos em dinheiro não identificados.

Como demonstração de que a conta de Queiroz era uma conta ônibus, ou seja, de passagem, no mesmo período investigado Queiroz sacou quase R$ 3 milhões (R$ 2.967.024,31) em dinheiro vivo. Os outro doze assessores sacaram, também em cash, R$ 2.963.781,77, cujos beneficiários finais se desconhecem – esse montante já elimina os valores repassados por eles a Queiroz.

Ressaltando: o dinheiro, ao menos em parte desviado dos salários bancados pela Alerj, entrava na conta de Queiroz e logo saía, seja como dinheiro vivo, seja por meio de pagamentos de títulos, como contas de terceiros. É uma técnica clássica – e tosca, pois facilmente identificável – de lavar dinheiro. O mesmo vale para os saques em espécie que os outros doze assessores fizeram.

Uma vez que os valores viram dinheiro vivo, torna-se quase impossível rastrear o destino final. Ou seja, como a grana desviada foi utilizada – e em benefício de quais pessoas.

Nesse caso, são quase R$ 6 milhões em dinheiro vivo, desviados dos cofres públicos no gabinete de Flávio Bolsonaro. Para saber que fim teve essa dinheirama, os investigadores precisam que os investigados comecem a falar. Caso contrário, não há como avançar ao topo da organização criminosa.

Duas familiares do miliciano Adriano da Nóbrega, morto recentemente numa operação policial, também eram assessoras da Alerj – a ex-mulher do miliciano era empregada no gabinete de Flávio Bolsonaro; a mãe dele, na estrutura da Assembleia, por indicação do deputado. As duas receberam R$ 1.029.042,48 da Assembleia. Repassaram R$ 203 mil desse total a Queiroz. Nóbrega era amigo de Queiroz. Ambos foram investigados por um assassinato quando eram policiais.

Mensagens entre Queiroz e a ex-mulher do miliciano, obtidas pelo Ministério Público, demonstram o temor de que a exposição política da família Bolsonaro nas eleições em 2018 levasse à descoberta do esquema.

Algumas evidências

Como funcionava o esquema, segundo os promotores:

Queiroz era o operador e tentava esconder os rastros:

A ligação de Queiroz com o miliciano morto Adriano Nóbrega:

A preocupação de Queiroz com a proximidade das eleições de 2018, em mensagem trocada com a ex-mulher do miliciano Adriano Nóbrega e funcionária fantasma do gabinete de Flávio Bolsonaro:

Queiroz organiza o repasse das verbas à ex-mulher do miliciano, incluindo a cópia do Imposto de Renda dela:

Ex-mulher do miliciano demonstra a uma amiga que sabia no que estava metida:

Box de transparência

Provas dos autos

O Vortex teve acesso às principais provas da investigação e conversou, reservadamente, com fontes que detêm conhecimento direto dela

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