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Justiça

Os documentos que apontam indícios de pagamentos de propina de R$ 404 mil a Witzel e à mulher dele

(atualizado: 29/05/2020, 22:18) diego@vortex.media

Documentos apreendidos pela Polícia Federal na operação Placebo apontam indícios de que o governador do Rio, Wilson Witzel, e sua esposa, Helena Witzel, receberam propina do empresário acusado de chefiar a organização criminosa responsável por desviar dinheiro de contratos da saúde no Estado. No total, segundo os investigadores, já foram identificados R$ 404 mil em pagamentos com forte suspeita de ilegalidade – vieram de contas controladas por esse empresário, por meio de laranjas e operadores. A papelada já foi anexada ao processo que corre no Superior Tribunal de Justiça contra Witzel.

Por que isso importa?

Os indícios contra o governador e sua esposa foram revelados no decorrer desta semana, mas a íntegra dos documentos permite compreender de modo mais amplo e claro a força das provas que pesam contra os dois

Na operação, deflagrada na terça, dia 26, os policiais apreenderam trechos do Imposto de Renda do governador. Um desses documentos é a declaração entregue ao Fisco por Witzel em 2019, referente a 2018. O extrato do Imposto de Renda registra que o então candidato ao governo do Rio recebeu R$ 284,4 mil do escritório de advocacia de Lucas Tristão, seu principal auxiliar desde os tempos de magistratura.

Trecho da declaração de Imposto de Renda de Witzel em 2019, apreendido pela PF

Quando assumiu o governo do Rio, Witzel nomeou o advogado Tristão como secretário de Desenvolvimento Econômico. Apesar de ser investigado pela PF e pelo Ministério Público Federal, e de ter sido igualmente alvo na operação Placebo, Tristão permanece no governo. Não só. Indicou ontem (quinta) seu sub para o cargo de secretário de Fazenda.

No mesmo ano em que abasteceu as contas pessoais do futuro governador, o escritório de Lucas Tristão recebeu R$ 225 mil das contas de duas empresas controladas por Mário Peixoto, o empresário acusado por procuradores e promotores de estar no centro do esquema de desvios nos contratos da Secretaria de Saúde.

Foram sete pagamentos das empresas de Peixoto aos dois escritórios de Tristão. Os depósitos começam em julho de 2018, quando Witzel se torna candidato ao governo do Rio, e se concentram no período eleitoral. As últimas transações ocorrem no dia 5 de outubro, uma sexta – o primeiro turno aconteceu no domingo, dia 7; Witzel ficou em primeiro lugar. Houve duas transferências naquela sexta: uma de R$ 45 mil e outra de R$ 55 mil. Não há evidências de que o escritório de Tristão tenha prestado serviços ao empresário Peixoto.

Os pagamentos das empresas de Peixoto a Tristão, encontrados no sigilo bancário do empresário

Esse conjunto de provas, portanto, demonstra que a principal fonte de receita de Witzel em 2018 veio de escritórios de seu homem de confiança. Até aí, poderia estar tudo certo. Contudo, essa receita veio no período em que esses mesmos escritórios recebiam dinheiro do empresário agora preso por corrupção no governo tocado por Witzel ao lado de Tristão. Ou seja, o escritório de Tristão, caso a hipótese criminal se prove verdadeira, serviu como canal de passagem de propina. (Todos sabem o quanto é difícil a quebra de sigilo bancário de uma banca de advocacia.)

Se de fato há um motivo espúrio para os pagamentos, como apontam os indícios e suspeitam fortemente os investigadores, por que o empresário Mário Peixoto fez esses depósitos em 2018, quando Witzel ainda era candidato?

Respondem os procuradores:

“É bem verdade que no ano mencionado o senhor Wilson Witzel ainda não era governador de Estado, mas se preparava para ser, sendo o ano em que concorreu e ganhou a eleição. Desta maneira, bastante provável que o pagamento destes valores possa se constituir um adiantamento de propina ou mesmo a construção de um aparato inicial de lavagem dos valores a serem recebidos”, escreveu ao STJ a Procuradoria-Geral da República.

Trecho de petição da PGR ao ministro Benedito Gonçalves, do STJ

À época dos pagamentos, Peixoto já era investigado na Lava Jato pelo pagamento de propina a políticos do Rio. Esse fato era público e notório.

A atuação de Lucas Tristão e do escritório de Helena Witzel, mulher do governador, é uma das principais frentes de investigação da Lava Jato.

R$ 120 mil para a primeira-dama

No caso dos pagamentos do grupo criminoso ao escritório de Helena Witzel, há oito depósitos – todos mensais – entre agosto de 2019 e março deste ano. A empresa que manda o dinheiro é controlada pelo empresário Mário Peixoto. Ela disse que prestou “consultoria verbal”.

O resumo das transferências, segundo os procuradores

As notas fiscais e os comprovantes bancários foram descobertos num email trocado entre integrantes da organização criminosa, descoberto pela PF:

Embora não haja indício de serviço prestado, há um contrato entre a empresa controlada pelo empresário e o escritório da primeira-dama:

Os principais comprovantes de pagamento:

De acordo com os procuradores, esta é a estrutura criminosa:

Vortex não conseguiu acesso à defesa dos suspeitos, mas permanece à disposição para dar espaço ao que eles dizem. Ressalte-se que tanto o governador quanto sua esposa negam quaisquer irregularidades. Witzel diz-se vítima de uma campanha política.

Box de transparência

Provas dos autos

Vortex teve acesso à integra dos autos do caso. As provas neles contidas expõem na totalidade os indícios relatados de modo intermitente no decorrer da semana.

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