Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil ()
Justiça

Por dentro da operação contra o governador do Rio

(atualizado: 26/05/2020, 10:44) diego@vortex.media

A pedido da Procuradoria-Geral da República e por decisão do Superior Tribunal de Justiça, a Polícia Federal faz hoje buscas em endereços do governador do Rio, Wilson Witzel, incluindo no Palácio das Laranjeiras. Ele é suspeito de participar de um esquema de desvio de dinheiro público nos contratos de Saúde do estado e, em especial, das ações emergenciais para enfrentar a pandemia.

Os elementos iniciais para a operação Placebo foram enviados à PGR por investigadores federais e estaduais do Rio, logo após a operação Favorito, na semana retrasada. Os procuradores e delegados encontraram indícios do envolvimento de Witzel no esquema. Não se trata, portanto, de uma investigação parada há meses e que só foi deflagrada em razão das mudanças na PF. Longe disso.

Segundo relatos feitos à reportagem logo após a operação da semana retrasada e confirmados nos últimos dias, relatos esses de investigadores do Rio que apuram o esquema, são, de fato, danosas as evidências que ligam o governador e pessoas próximas a eles aos desvios. Ao menos são suficientes para medidas cautelares como a de hoje. Os indícios examinados pela reportagem envolvem um diálogo já de conhecimento público, em que um dos operadores parece ser referir a Witzel como “Zero Um”, e um depoimento de um burocrata da Saúde preso recentemente – Gabriell Neves.

O Vortex, porém, não teve acesso ao conjunto total de evidências para avaliar de modo independente se elas são sólidas o suficiente para fundamentar uma operação como a de hoje. Duas fontes com conhecimento direto do caso, ambas do Rio e que detêm alto grau de confiabilidade, no entanto, asseguravam que sim.

Era uma dúvida pertinente diante do claro ânimo da PGR para partir para cima de governadores opositores a Bolsonaro. Para os investigadores do Rio, porém, que estão cientes desse subtexto político, as evidências se impunham – e medidas cautelares não se configurariam um exagero; ao contrário.

Ao investigar a fundo o empresário Mário Peixoto e suas conexões com a cúpula dos três Poderes no Rio, o que originou a operação Favorito, os procuradores e promotores se convenceram, reservadamente, de que estamos diante de uma nova e ampla organização criminosa, em moldes semelhantes à de Sergio Cabral e Pezão. Começaram a surgir indícios fortes de que a cúpula do governo do do Rio está envolvida na liderança dessa organização criminosa, que vai muito além da área da Saúde.

A operação Favorito se apresentou, assim, como a primeira de possivelmente muitas operações, federais e estaduais. É nesse contexto que aparecem as evidências de envolvimento de secretários de Estado e mesmo de Witzel. Mais uma vez, é essencial frisar que o Vortex não teve acesso à íntegra das evidências enviadas à PGR e não pode, neste momento, avaliá-las de modo independente. Analisou somente os autos das operações deflagradas nas últimas semanas. O juízo expressado pelos procuradores e promotores, no entanto, coincide com as informações coletadas pela reportagem junto a operadores e empresários com conhecimento direto desses fatos.

Se o ânimo da PGR para investir contra opositores de Bolsonaro ainda precisa ser investigado (e está sendo), os fatos do caso exigiriam as ações invasivas pedidas e, ressalte-se, acolhidas pelo STJ. O aspecto técnico, portanto, mistura-se ao aspecto potencialmente político.

Os investigadores do Rio, no entanto, querem distância das questões políticas de Brasília. Estão concentrados na investigação dos crimes locais e no avanço das apurações sobre os líderes dos esquemas. Um deles é bem pragmático. “A disposição da PGR para investigar Witzel e seus secretários favorece o desbaratamento da organização criminosa. É isso que nos importa, pois elementos não faltam”, disse-me um deles, ainda na semana passada.

Apesar do discurso de que a operação de hoje é resultado da interferência do presidente na PF, o órgão a ser analisado, sob o prisma político, é outro: a PGR. Não custa ressaltar que a PF, por definição e segundo as evidências disponíveis, tem uma função complementar na operação de hoje. Os principais atores estão na PGR e no STJ.

No entanto, seja pela PGR, seja pela PF, há a real possibilidade de que a operação de hoje – ou a mera possibilidade da operação de hoje – tenha vazado ilegalmente para aliados de Bolsonaro, como parece demonstrar a entrevista da deputada Carla Zambelli à Rádio Gaúcha ontem. Ainda assim, é justo reiterar que a existência de uma operação iminente contra Witzel corria como boato por Brasília há dias. Alguns, de fato, sabiam da operação. Não é claro se Zambelli falava usando o rumor ou se detinha informações privilegiadas. A esta altura, é possível apenas especular.

Witzel, que não tardou a carimbar a operação como um ato de perseguição política, tem todo o interesse em que se ignorem os fatos criminais do caso. Tenha ele razão ou não, há de se atentar às evidências que justificaram a operação de hoje. Não há absolutamente nenhuma participação ou autoria minha em nenhum tipo de irregularidade nas questões que envolvem as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal”, disse o governador, em nota.

O Vortex está atento a esse caso – tanto no aspecto criminal quanto no aspecto potencialmente político – e voltará com mais informações assim que obtivê-las.

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