Justiça

A cronologia da interferência ilegal de Bolsonaro na Polícia Federal

diego@vortex.media

Vortex ainda está trabalhando numa cronologia minuciosa das ações do presidente Jair Bolsonaro em suas investidas para promover mudanças indevidas na Polícia Federal. É a melhor maneira de compreender o que sabemos e o que não sabemos sobre o que transcorreu. Como em qualquer investigação.

Sem prejuízo desse exame detalhado, os fatos já estabelecidos são relativamente simples.

Os depoimentos já prestados, as mensagens de WhatsApp entre Moro e Bolsonaro, atos administrativos do governo, declarações públicas do presidente e, como peça principal, o vídeo da reunião apontam que:

  1. O presidente estava insatisfeito com a PF porque não recebia informações de inteligência (não poderia) nem era protegido (não poderia e não havia como) na investigação do MP do Rio sobre o esquema de rachadinha nos gabinetes de sua família.
  2. Essa insatisfação coincidiu com o avanço das investigações sobre o caso, em agosto do ano passado.
  3. No decorrer do segundo semestre de 2019, Bolsonaro tentou colocar um delegado de confiança à frente da PF e outro na Superintendência do Rio. Recuou, diante da resistência de Moro.
  4. Com o caminhar do inquérito no Rio e as quebras finais de sigilos bancários essenciais para rastrear os beneficiários finais do esquema da rachadinha nos gabinetes de seus familiares, Bolsonaro voltou à carga no começo deste ano. Pressionou Moro. Manifestou a seus ministros que se achava “perseguido” por essa investigação. Pouco antes, ocorrera uma busca e apreensão relevante nesse caso.
  5. No final de março, o presidente chegou a mandar uma mensagem ao seu então ministro da Justiça. “Você tem 27 Superintendências. Só preciso de uma (a do Rio)”, escreveu Bolsonaro.
  6. Na manhã de 22 de abril, Bolsonaro mandou uma mensagem a Moro: “Valeixo vai sai nesta semana. Está decidido”. Não explicou por quê. Horas depois, na reunião ministerial, Bolsonaro foi explícito sobre suas intenções:

6.1. “A questão estratégica, que não estamos tendo. E me desculpe, o serviço de informações nosso, todos, é uma … são uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô!“, disse. Ato contínuo, olhou para Moro.

6.2. “E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações.

Em seguida, o ponto essencial:

6.3. “Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.

  1. Dois dias depois, Bolsonaro avisou a Moro que demitiria Valeixo. O substituto? Alexandre Ramagem, o delegado da PF mais próximo ao presidente. Moro afirmou que se demitiria se Bolsonaro levasse a cabo a intenção. Mais tarde, Bolsonaro compartilhou com Moro, por WhatsApp, uma matéria que citava a investigação de deputados Bolsonaristas. “Mais um motivo para a troca”, escreveu o presidente.
  2. No dia seguinte, 24 de abril, a demissão de Valeixo saiu no Diário Oficial. Embora não tenha pedido para sair, Valeixo aceitou, verbalmente, que sua exoneração fosse publicada “a pedido”.
  3. Moro pediu demissão no mesmo dia e explicou que deixava o governo em função do que julgava ser uma inteferência política do presidente na PF.
  4. Diante da repercussão, Aras, aliado do presidente, pediu horas depois abertura de inquérito ao Supremo, em virtude do que considerou indícios de crimes. Pediu para investigar a suspeita de crimes cometidos, em tese, pelo presidente. Num ato heterodoxo, também pediu investigação sobre Moro.
  5. Na semana seguinte, Bolsonaro levou adiante suas intenções e nomeou Ramagem para a Direção-Geral da PF. Provocado, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação, por enxergar desvio de finalidade no ato. Considerou que o presidente não seguiu os princípios da impessolidade e da probidade.

A versão da defesa de Bolsonaro não é frágil. É risível – a tal ponto que até os ministros militares do Planalto se confundiram ao enunciá-la em seus depoimentos à PF. O presidente disse que, na reunião ministerial, se referia à sua segurança pessoal no Rio. Ou seja, ele estaria falando do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, e não da PF.

O contexto do vídeo e o conhecimento rudimentar acerca do funcionamento de ambos os órgãos impedem que essa versão seja levada a sério. Ademais, foi desmentida pelo presidente, em entrevista coletiva na noite de sexta, na qual admitiu seu temor de ser “chantageado” no Rio.

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