(Marcello Casal Jr./Agência Brasil)
Justiça

Análise: o trecho completo e essencial do vídeo que implica criminalmente o presidente da República

(atualizado: 25/05/2020, 13:43) diego@vortex.media
O contexto completo em que o presidente menciona seus motivos privados para promover trocas na PF

Após o esperado ciclo de narrativas e contra-narrativas, em que os ruídos das hashtags se sobrepõem ao sinal dos fatos, torna-se possível e útil examinar o trecho mais relevante do vídeo liberado pelo ministro Celso de Mello. Como já escrevemos, o acréscimo da gravação (quase) completa aos fatos já estabelecidos na investigação elimina qualquer dúvida razoável sobre os crimes comuns praticados pelo presidente da República. Há indícios suficientes de autoria e materialidade de que Bolsonaro cometeu o crime de prevaricação – ou, numa tipificação mais benevolente, advocacia administrativa. O procurador-Geral da República, Augusto Aras, aliado do presidente, a quem cabe oferecer ou não denúncia contra o presidente, fará de tudo para arquivar o inquérito. A atuação política de Aras, contudo, não muda o fato de que as evidências de crime são sólidas.

Por que isso importa?

O vídeo é uma peça crucial no caso porque nele o presidente expõe seus motivos privados e anti-republicanos para seus atos subsequentes: a efetiva demissão de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal e a tentativa frustrada pelo Supremo de substitui-lo por Alexandre Ramagem, delegado amigo da família Bolsonaro.

O trecho acima é o principal e mais pertinente do vídeo, embora haja outros momentos relevantes, nos quais o presidente reclama por não receber informações de inteligência, incluindo da PF – o que é falso; ele tinha acesso a todas os relatos de inteligência de Estado, que sua prerrogativa constitucional lhe assegura, como atestam depoimentos e a análise do fluxo de relatórios da PF ao Sistema Brasileiro de Inteligência. Também disse que iria interferir nos ministérios. Assim que fala “interferir”, olha para Moro.

O vídeo não é a única prova do inquérito. Há depoimentos, mensagens, perícias e outros documentos – alguns ainda sob sigilo. Confira aqui uma cronologia abreviada do caso.

O momento da reunião – o contexto – que precede a fala do presidente de que “vai trocar (…) gente da segurança nossa no Rio de Janeiro” é fundamental por duas razões. A primeira: demonstra que Bolsonaro, ao contrário do que sustenta sua defesa, não falava do trabalho de Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, responsável pela proteção física dele e de sua família. A segunda razão: demonstra, por outro lado, que o presidente estava inconformado com o trabalho da imprensa (no caso, cita uma matéria da “Folha”) e com o que aconteceria com sua família caso fosse expulso do poder. Mas resta evidente que não se tratava de uma preocupação com a segurança física de seus familiares; e sim com investigações.

A ordem da fala de Bolsonaro é simples. Menciona, mais uma vez, o que julga ser a má qualidade das informações de inteligência que recebe, admitindo, por sinal, que detém um “sistema particular” de inteligência – algo, no mínimo, suspeito para um presidente da República. Prosseguindo no tom paranoico que permeia toda a reunião, Bolsonaro aduz que, caso saia da Presidência e deixe o país, sua família poderia “se fuder”. E cita o caso de seu irmão, alvo de uma matéria da “Folha”.

Novamente, eis a contextualização essencial: não há qualquer referência à violência física ou à proteção pessoal dele e de seus familiares – o que caberia ao GSI. Essa ausência, associada à presença de outro tipo de preocupação, de cunho investigativo de seus familiares, cancela qualquer dúvida acerca do sentido do que o presidente pretende comunicar naquele momento.

A versão do presidente não é apenas frágil. Ela é flagrantemente mentirosa. E o que é grave: essa versão mentirosa foi corroborada, em depoimentos à Polícia Federal, por três generais que apoiam Bolsonaro e são ministros no Planalto.

Repita-se: não há qualquer indício mínimo – mínimo – de que a versão do presidente se sustenta. E há uma abundância de evidências sólidas do contrário: de que ele pretendia interferir por motivos privados, em benefício próprio, na Polícia Federal – e de que conseguiu isso ao menos em parte, pois dois dias depois demitiu Valeixo. Para completar, mentiu sobre suas razões.

A cada fato ou ato processual desse caso, os investigadores aproximam-se da verdade possível. Todas as peças convergem para confirmar a hipótese criminal de que o presidente da República agiu ilegalmente, em benefício próprio, ao pressionar e obter mudanças na cúpula da Polícia Federal.

Leia a íntegra da degravação do trecho acima, feita pelos peritos da PF:

Jair Bolsonaro: O meu particular funciona. Os ofi… que tem oficialmente, desinforma. E voltando ao… ao tema: prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho. Então, pessoal, muitos vão poder sair do Brasil, mas não quero sair e ver a minha a irmã de Eldorado, outra de Cajati, o coitado do meu irmão capitão do Exército de… de… de… lá de Miracatu se foder, porra! Como é perseguido o tempo todo. Aí a bosta da Folha de São Paulo, diz que meu irmão foi expulso dum açougue em Registro, que tava comprando carne sem máscara. Comprovou no papel, tava em São Paulo esse dia. O dono do… do restaurante do… do pa… de… do açougue falou que ele não tava lá. E fica por isso mesmo. Eu sei que é problema dele, né? Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira. 

Newsletter

Reportagens exclusivas e as notícias mais quentes na sua caixa de e-mail.

Valorizamos sua privacidade. Nunca enviaremos spam ou compartilharemos suas informações com terceiros.

Assine

O novo modo de fazer jornalismo de que o novo Brasil precisa.

Apoie o nosso jornalismo para que possamos ajudar a elevar a democracia.
Assine Vortex