Justiça

A exigência da prova impossível

diego@vortex.media

Sobre essa parada de narrativa (de frustração ou comemoração), um breve comentário sobre nossa história recente.

1. Assim que virei jornalista, fui apresentado ao estranho conceito (tácito) de prova impossível, comum em países atrasados. O que é a exigência da prova impossível? Como ela transcorre?

2. Funciona assim: você consegue uma prova que demonstra “A”, ou reforça a existência de “A”. O acusado ou seus apoiadores devolvem: “A” não prova “B”.

3. Aí você vira e fala: “Carai, tá bom. Vou atrás de ‘B'”. Aí você consegue prova de “B”. O acusado e seus apoiadores falam: não, amigo, “B” não prova “C”.

4. Aí nois vai e rala. Obtém prova de “C”. Ficamos orgulhosos do nosso trabalho duro. O acusado e seus apoadores mandam: para de campanha. “C” não é prova de “D”.

5. Você enlouquece, se pergunta se não está doido, se os seus parâmetros morais e legais estão em ordem. E vai atrás de “D” . Com muita sorte, pá: arranca um “D” de uma fonte. O que acontece? O acusado e seus apoiadores reclamam: não, seu golpista, “D” não prova “E”.

6. Aí, antes de endoidar, você percebe: não adianta a prova que eu conseguir. Quem não está disposto a acreditar, ou está determinado a acreditar de modo dogmático em quem gosta, jamais vai dar qualquer pelota para A, B, C, D, E ou qualquer prova.

7. Eu acabei de descrever o mensalão, o petrolão, as dezenas de esquemas descobertos na Lava Jato, as sacanagens de Joesley com Temer (que não se limitavam ao aúdio), os casos da Odebrecht com Lula – e muito mais. Eu descrevi os últimos 20 anos.

8. A perversão do garantismo e o oportunismo dogmático conduzem à exigência da prova impossível.

9. Repórteres, ao menos os mais antigos, e investigadores mais experientes sabem bem do que falo. O que resta? Trabalhar e expor fatos de interesse público. Fazer o que está sob nosso controle.

10. Essa preocupação com a correta valoração de juízos de fato é algo próprio dos jornalistas e de quem atua na área penal. Ela não substitui análises políticas, eleitorais ou econômicas acerca das consequências desses fatos. Creio que muitos confundem isso.

11. Em 2011/12, quando fui cursar meu mestrado na Columbia, tentei refletir sobre isso: adianta ralar para expor fatos imorais e até ilegais, de interesse público, se nada acontece? Período pós-mensalão, pré-Lava Jato, em que eu – e outros – sabíamos que a corrupa seguia forte.

12. Estudei a erosão do valor da verdade factual, em face do comportamento negacionista de Lula e do aparato digital governista, que já funcionava com bastante vigor. 2011 isso.

13. Nos EUA, eles chamam de “tese” o trabalho final de mestrado. A minha foi “Corruption Rules – Brazil under Lula”.

14. Trabalho bem mezzo o meu. Mas a experiência em Columbia, ao menos, renovou meu senso de missão no jornalismo. A frase acima, de Pulitzer, sobre a simbiose entre o destino da imprensa e da República, não está aqui fortuitamente.

15. E, claro, desde então tento explicar este estranho país a meus colegas e amigos estrangeiros. (Estou fazendo isso neste momento, aliás.) Sei que muitos colegas, muito mais qualificados, fazem o mesmo.

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