(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Justiça

Mudança no comando do grupo que investiga políticos é novo revés para a Lava Jato

marcelo@vortex.media

No mesmo dia em que um relatório da Transparência Internacional mostrou piora do Brasil no ranking que mede, desde 2012, a percepção da corrupção nos países, mudanças anunciadas numa das principais frentes de trabalho que lidam com o assunto causam preocupação.

Por que isso importa?

A mudança representa mais um sinal de enfraquecimento da maior operação de combate à corrupção no país, justamente em sua frente mais delicada, que é a investigação de políticos.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, trocou o comando do Grupo de Trabalho Lava-Jato, encarregado das investigações que miram autoridades com foro nos tribunais superiores. É mais um revés para a Operação que investiga corrupção desde 2014.

Coordenador do GT desde outubro passado, o subprocurador José Adonis pediu para se desligar da função por causa de divergências com Aras sobre os rumos do trabalho. Entre outras funções, o coordenador participa da negociação de acordos de delação premiada.

No lugar de Adonis assume a subprocuradora Maria Lindôra Araújo, hoje responsável por matéria penal no Superior Tribunal de Justiça.

  • Numa tentativa de conter as críticas, Aras ampliou o número de integrantes do grupo de trabalho. Ele designou dois novos integrantes, ambos ligados a seus antecessores — Vladimir Aras, que foi da equipe de Rodrigo Janot, e Raquel Branquinho, responsável na equipe de Raquel Dodge pelos processos penais que tramitam no Supremo Tribunal Federal.
  • Embora o discurso da cúpula da PGR seja o de coesão do grupo responsável por investigar o envolvimento de políticos e autoridades com prerrogativa de foro no maior escândalo de corrupção do país, Aras é questionado nos bastidores do Ministério Público.
  • São quatro meses à frente da PGR sem que a Lava-Jato tenha emitido sinais de que reagirá à onda de enfraquecimento que sofre desde a gestão Raquel Dodge — enquanto isso, praças como Paraná e Rio de Janeiro principalmente seguem o ritmo normal.

Na sabatina aos parlamentares, passo anterior à sua aprovação pelo Senado e nomeação pelo presidente da República, o escolhido de Jair Bolsonaro falava em corrigir os “excessos” da Lava-Jato, embora tenha feito ressalva de ser um apoiador do trabalho.

As delações premiadas foram cruciais para o sucesso da Lava-Jato ao oferecer aos procuradores da República um robusto mapa, composto de informações, extratos bancários e outros documentos, sobre a corrupção de políticos e outros agentes públicos.

Desde a saída de Rodrigo Janot, porém, o ritmo dos acordos despencou quase a zero. A delação do empresário Léo Pinheiro, da construtora OAS, por exemplo, foi negociado por dois anos, até ser homologado pelo ministro Edson Fachin em setembro do ano passado.

Deixaram de constar do acordo, segundo Dodge por falta de elementos a respaldar a abertura de investigação, anexos em que o empreiteiro fazia referências a políticos e autoridades do Judiciário, entre eles o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e um irmão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, além de integrantes do STJ e do TCU.

Newsletter

Reportagens exclusivas e as notícias mais quentes na sua caixa de e-mail.

Valorizamos sua privacidade. Nunca enviaremos spam ou compartilharemos suas informações com terceiros.

Assine

O novo modo de fazer jornalismo de que o novo Brasil precisa.

Apoie o nosso jornalismo para que possamos ajudar a elevar a democracia.
Assine Vortex