(Rodolfo Almeida/Vortex, com Agência Brasil)
Dados

Campanha no Twitter por impeachment de Gilmar Mendes tem marcas de ação coordenada

sergio@vortex.media lucas@vortex.media guilherme@vortex.media

Desde segunda-feira (11) figura entre os tópicos mais mencionados no Twitter uma campanha pelo impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Os dados mostram que a iniciativa foi impulsionada por um pequeno grupo de usuários, indicando uma coordenação para ampliar o alcance do movimento online.

Análise do Vortex com mais de 1 milhão de tuítes descobriu que apenas 1.770 perfis no Twitter tuitaram ou retuitaram mais de 100 vezes, em menos de três dias, as hashtags #ImpeachmentGilmarMendes ou #GilmarMendesImpeachment, ajudando a campanha a perseverar no topo dos assuntos mais comentados. 

Por que isso importa?

A análise sobre impulsionamento coordenado de campanhas online é importante para descobrir se um movimento é real ou artificial, inflado pela ação de grupos nas redes sociais. Pedidos de impeachment de ministros do Supremo se tornaram mais comuns nos últimos anos.

Esses perfis correspondem a apenas 2% dos usuários (cerca de 90 mil) que, em algum momento, utilizaram as hashtags desde a meia-noite de segunda-feira até a tarde de quarta, sendo diretamente responsáveis por 35% de todos os resultados de buscas dessa campanha no Twitter.

Na manhã de quinta-feira (14), uma nova hashtag da campanha (#Dia17AdeusGilmarMendes) figurava no segundo lugar dentre os assuntos mais comentados do dia. Esses dados não constam na análise do Vortex.

Um grupo de apenas dez usuários compartilhou as hashtags mais de 1.000 vezes durante as 64 horas analisadas, ao passo que 82 perfis compartilharam mais de 500 vezes. A média é de 11 tuítes ou retuítes por perfil — enquanto a mediana é de apenas dois. Mediana é uma forma de aferição que ameniza distorções na análise de dados. Isso significa que a ação deste grupo elevou bastante o desempenho dos hashtags.

O número máximo de retuítes com os dados analisados foi do influenciador de direita Leandro Ruschel, com mais de 8.500 compartilhamentos. A mediana é de 54 retuítes, e 236 mil tuítes com as hashtags não foram compartilhados uma única vez.

No total, 16.687 tuítes ou retuítes (1,6% do total) foram originados de contas criadas em novembro, e 280.181 (27.2%) de contas criadas em qualquer dia de 2019.

A campanha veio, majoritariamente, de setores da direita. De 53.500 usuários com descrições em seus perfis, cerca 8.000 continham a palavra “conservador” ou “conservadora”, cerca de 6.400 se declaravam de “direita” e pouco mais de 3.200 tinham a palavra “Bolsonaro” nas biografias.

Pedidos no Senado

Longe da mobilização e do barulho nas redes sociais, no entanto, um eventual impeachment do ministro Gilmar Mendes é altamente improvável. O Senado tem pendentes de análise três pedidos de impeachment que tratam exclusivamente de Gilmar. Outras duas representações em aberto envolvem o ministro em conjunto com outros integrantes da Corte.

A Constituição prevê a possibilidade de impeachment de um ministro do Supremo. A admissibilidade do pedido é uma decisão que cabe exclusivamente ao presidente do Senado. Se o pedido for aceito, o processo tramita na Casa. É um pouco diferente do impeachment do presidente da República, que precisa ser examinado por Câmara e Senado. Em 130 anos de história republicana, nunca um ministro do Supremo foi impedido.

Ao longo deste ano, o Senado recebeu ao menos 16 pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Junto com o presidente da Supremo, Dias Toffoli, Gilmar é o mais visado entre os cidadãos, juristas e políticos que pedem a cabeça dos ministros ao Senado.

Após a eleição do presidente Jair Bolsonaro e ações que impactaram a Operação Lava Jato, ampliaram-se as críticas ao tribunal. Desde 2018, a base de dados do Senado aponta que foram protocoladas oito representações contra Gilmar Mendes – sendo cinco exclusivamente contra o magistrado e três que envolvem ele e colegas. Em uma destas, há o pedido para que o Senado afaste Teori Zavascki, morto há quase três anos, que era o relator da Lava Jato.

Nos últimos dez anos, ministros da Corte foram alvos de mais de 30 pedidos de afastamento, mas nenhum avançou. As críticas mais recorrentes a Gilmar nos pedidos são:

  • Suposta atividade político-partidária, que seria incompatível com o cargo.
  • Não se declarar suspeito no julgamento de certos casos.
  • “Clamor popular”.
  • Esses seriam critérios que o enquadrariam no chamado crime de responsabilidade, que resulta no afastamento.

Em 2018, o então presidente Eunício Oliveira, do MDB, engavetou três pedidos de impeachment de ministros do Supremo. A julgar por alguns dos outros pedidos – e pela expectativa de que os poderes não se indisponham assim tão fácil – é quase certo que Davi Alcolumbre (DEM-AP) dê o mesmo destino às outras ações.

  • Para o advogado Modesto Carvalhosa, autor de um dos pedidos de impeachment de Mendes, a Petição nº 4/2019, o ministro exerce atividade político-partidária, e age de modo incompatível com o cargo.
  • Junto com o desembargador Laercio Laurelli e o advogado Luís Carlos Crema, Carvalhosa assina outra petição com as mesmas queixas, além de acusar Mendes de não declarar-se suspeito no julgamento de certos casos.
  • Um dos pedidos se baseia em certo “clamor popular”, que seria confirmado por quase dois milhões de assinaturas coletados no change.org, plataforma virtual de mobilização que não possui valor legal. Outro alega que a promoção de conteúdo da União das Repúblicas Sul Americanas, a Ursal, no Facebook, serviria como base para o afastamento dos 11 ministros.
  • Uma das petições é apresentada por um senador: em 10 páginas, Marcos do Val (Podemos/ES) argumenta que o magistrado teria exercido sua influência na instalação de um complexo industrial em Diamantino, no Mato Grosso, além de ter proferido um habeas corpus para Jacob Barata Filho. A soltura, ocorrida em 2017, foi alvo de críticas porque Gilmar foi padrinho de casamento da filha de Barata – fato que, segundo do Val, comprovaria seu impedimento no caso e que chegou a ser questionado no Supremo pelo Ministério Público.
Petição 1/2019

Quem pediu: Alane Andrelino Ribeiro, Igor Luiz Cerqueira, Jarbas Ricardo Almeida Cunha, João Telésforo Nóbrega de Medeiros Filho, Monica Alves Silva, Pedro Henrique de Souza Otoni, Ricardo de Oliveira Rezende e Thiago Borges Lied.

Com base: no ministro ter “excedido injustificadamente” os prazos para a ADI 4.650, que tratava do financiamento privado de campanha.

O que aconteceu: O então presidente da Casa, Eunício Oliveira (MDB/CE) arquivou o pedido em novembro de 2018.
Petição 4/2018

Quem pediu: Modesto Souza Barros Carvalhosa, Laercio Laurelli e Luís Carlos Crema.

Com base: em crimes de responsabilidade supostamente cometidos pelo ministro, como ter se comunicado com o então governador Silval Barbosa, investigado pelo próprio STF.

O que aconteceu: O então presidente da Casa, Eunício Oliveira (MDB/CE) arquivou o pedido em novembro de 2018.
Petição 7/2019

Quem pediu: Modesto Souza Barros Carvalhosa, Laercio Laurelli e Luís Carlos Crema.

Com base: Na suspeição do ministro em casos envolvendo cinco casos, e por ter procedido “de modo incompatível com a honra, dignidade de decoro” das funções em outras cinco oportunidades.

O que aconteceu: matéria está pendente de despacho pela Assessoria Técnica do Senado.
Petição 9/2019

Quem pediu: Marcos do Val

Com base: em supostos crimes de responsabilidade, como não ter se declarado suspeito ao julgar o habeas corpus de Jacob Barata.

O que aconteceu: desde maio deste ano, a matéria está pendente de despacho pela Assessoria Técnica do Senado.
Petição 12/2019

Quem pediu: André de Oliveira Guimarães e Maurício Marcondes.

Com base: no encontro de Mendes com o então presidente Michel Temer, e por discurso feito pelo ministro contra o Ministério Público.

O que aconteceu: desde maio deste ano, a matéria está pendente de despacho pela Assessoria Técnica do Senado.

Box de transparência

Dados do Twitter e levantamento

Vortex fez um levantamento a partir da API do Twitter, compilando tuítes que continham resultados de buscas pelas hashtags #ImpeachmentGilmarMendes e #GilmarMendesImpeachment. O código e a metodologia de análise de popularidade está neste link.

Vortex também fez buscas no site do Senado em busca de informações sobre pedidos de impeachment do ministro.

Para saber mais sobre identificação de indícios de campanhas coordenadas no Twitter, a empresa de segurança cibernética Symantec possui um relatório.

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